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Agostinho da Silva

Pró-presidente do Instituto Politécnico de Leiria

Depois da tempestade, um “mini” Plano Marshall para transformar, já hoje, o território de amanhã

Inovar na segurança das populações não é um luxo tecnológico. É uma condição essencial para garantir que o bem-estar, pelo qual tanto lutamos hoje, não seja destruído amanhã.

As tempestades estão a deixar marcas profundas na região Centro. Habitações, infraestruturas, empresas e serviços têm sido duramente afetados por eventos extremos que expõem fragilidades acumuladas e uma vulnerabilidade crescente aos riscos climáticos. É, e continua a ser, um momento difícil, marcado pela perda, pela incerteza e pela necessidade urgente de resposta.

Ainda assim, a nossa história ensina-nos algo essencial. É nos momentos críticos que Portugal revela o melhor de si.

Ao longo da História de Portugal, em contextos de guerra, catástrofe ou crise, nunca falhámos na resposta. Também agora, a dedicação das autarquias, das organizações públicas e privadas, das empresas e, sobretudo, das pessoas comuns impressionaria qualquer europeu do Norte. A solidariedade é parte integrante do nosso ADN coletivo. Quem vive estes dias no terreno sente emoção e orgulho ao ver todos a ajudarem todos.

Aqui, somos verdadeiramente únicos, e devemos dizê-lo sem falsas modéstias.

A história confirma-o. Muitos momentos críticos foram também momentos de progresso e de criação de riqueza. Basta recordar lideranças como as de D. Dinis, D. João II ou do Marquês de Pombal, que souberam transformar dificuldades em oportunidades estruturais para o país.

O nosso maior desafio surge, paradoxalmente, nos tempos de paz. É nesses períodos que frequentemente perdemos foco, coordenação, visão e disciplina estratégica. Fomos ricos e empobrecemos. Tivemos oportunidades e desperdiçámo-las. Tendemos a resolver o imediato, adiando o que é essencial para o futuro.

Se pensarmos nas nossas vidas antes da tempestade Kristin, os desafios do quotidiano já ocupavam as vinte e quatro horas do dia nas vidas pessoais, nas empresas, nas instituições públicas, nas autarquias e no Governo. Concentrados no curto prazo, conseguimos apagar incêndios diários, mas não garantimos que, daqui a um ano, estejamos melhor do que hoje.

É precisamente aqui que precisamos de mudar a forma como pensamos.

Se queremos que amanhã todos estejamos melhor, temos de pensar hoje onde queremos estar daqui a um, cinco ou dez anos. Precisamos de definir com clareza o destino e começar já, de forma consistente, a trabalhar nesse caminho. Não se trata de um exercício teórico, mas de uma responsabilidade individual, assumida de forma coletiva que quando concretizada produz resultados reais.

Esta visão está bem expressa no Estudo Prospetiva 2035: Três Cenários para Leiria e Oeste, apresentado em abril de 2025. O trabalho envolveu 857 participantes, provenientes de 24 municípios, de Soure a Alenquer, ao longo de mais de dois anos, sob coordenação do Politécnico de Leiria. A palavra “catástrofe” surge referida 19 vezes, refletindo a relevância do tema. O estudo identifica que, à semelhança de outras áreas de intervenção, a inovação na prevenção e resposta a catástrofes constitui um fator crítico de mudança para o território, com um impacto que vai muito além da proteção civil.

Para seguir um caminho mais seguro, o Prospetiva 2035 propõe vários projetos-piloto orientados para validar soluções para problemas concretos. Um exemplo, é a urgência da criação de uma rede regional de monitorização e alerta, integrando sensores de deteção de incêndios, estações meteorológicas automáticas e sistemas de comunicação de emergência. Uma rede de funcionamento centralizada, capaz de disponibilizar informação em tempo real às autoridades, aos serviços de emergência e à população, permitindo respostas mais rápidas, coordenadas e eficazes.

Inovar na segurança das populações não é um luxo tecnológico. É uma condição essencial para garantir que o bem-estar, pelo qual tanto lutamos hoje, não seja destruído amanhã.

Neste contexto, a criação da “Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País” representa um sinal de alinhamento político e institucional com a visão do Prospetiva 2035. O Governo reconhece que reconstruir não pode significar regressar ao ponto de partida, mas sim transformar, alavancando a produtividade, o bem-estar das pessoas, a resiliência e a competitividade do território.

Nos próximos meses, a prioridade é inequívoca: garantir que pessoas e empresas recuperem condições mínimas de normalidade. Em paralelo, é fundamental que este esforço de reconstrução seja também a base de um futuro melhor, em que ninguém fica para trás.

É aqui que o caminho da Transformação Centrada no Conhecimento, proposto pelo Prospetiva 2035, pode servir de ponto de partida para o território que queremos ser daqui a dez anos. O contexto pós-catástrofe cria, de forma paradoxal, as condições necessárias para uma verdadeira transformação.

Muitas empresas da região, especialmente pequenas e médias empresas, terão de reconstruir instalações, rever processos e reeinvestir. Com os apoios agora disponíveis, esse esforço pode e deve ser também um processo de modernização, através da adoção de tecnologias digitais, sistemas inteligentes de monitorização, soluções energéticas mais eficientes, novos modelos de negócio e uma maior integração em cadeias de valor baseadas no conhecimento.

Mas a transformação exigirá mais. Vale a pena recordar Bretton Woods, onde, em 1944, um conjunto de líderes e visionários, entre os quais Winston Churchill, ajudaram a desenhar o enquadramento que viria a dar origem ao Plano Marshall. A disponibilização de capital de fomento, alavancado por garantias públicas, permitiu reconstruir a Europa que hoje conhecemos e alcançar alguns dos mais elevados níveis de bem-estar do mundo. Foi, acima de tudo, um investimento com um retorno económico e social extraordinário.

Também aqui na região Centro, depois dos apoios imediatos, precisamos de um “mini” Plano Marshall capaz de tornar o território um verdadeiro modelo de excelência. Instrumentos identificados como essenciais pelo Prospetiva 2035 para atrair e reter talento, como a futura Universidade de Leiria e Oeste, um Instituto Europeu de Inovação e Ciência ou clusters tecnológicos nas áreas da saúde, da defesa, entre outros, podem acionar um verdadeiro pipeline de projetos-piloto, orientados para soluções concretas e atrair investimento transformador.

A tempestade Kristin mostrou-nos o custo da inação. As ferramentas agora criadas demonstram que existe vontade política e capacidade de mobilização. O que falta garantir é visão, coragem para mudar e, sobretudo, a capacidade de pensarmos mais no bem comum do que no interesse individual.

Se, em conjunto, soubermos alinhar a reconstrução com um plano sério de médio e longo prazo, este momento difícil poderá marcar o início de uma nova fase de desenvolvimento, mais inovadora, mais resiliente e mais preparada para os desafios que sabemos que aí vêm.

E porque, apesar do infortúnio que hoje vivemos, se trabalharmos juntos, poderemos sair todos mais fortes.