A situação de calamidade que atingiu a Região de Leiria, e de um modo geral todo o país, deve obrigar a uma reflexão isenta e transversal a todas as áreas, para se identificarem as debilidades do ordenamento do território, das construções, das florestas e do apoio que as populações necessitam em caso de catástrofe.
De cada vez que o país enfrenta uma calamidade ficam mais visíveis os erros que têm sido cometidos, o modelo da organização que deveria responder no imediato, bem como a necessidade de se manterem comunicações, energia e outras respostas.
Sempre tivemos e continuaremos a ter ciclones, inundações, secas, incêndios e sismos. No terramoto de 1755 morreram mais de 10.000 pessoas.
O ciclone de 1941 atingiu 170 km/h, as inundações de 1967 provocaram mais de 500 mortos. Nos incêndios de 2017 faleceram 111 pessoas e o sismo de 1969 provocou 13 mortos. As secas dos últimos anos, se continuassem, teriam tido graves consequências, admitindo-se construir centrais de dessalinização da água do mar, com investimentos e consumos de energia elevados. Mas, quando surgem inundações, perdemos a água que no futuro nos fará falta.
Perante esta evidência, devemos questionar muitas das certezas que assumimos como garantidas da sociedade em que vivemos. A energia e as comunicações surgem como infraestruturas inquestionáveis que passaram a fazer parte da nossa vida. São críticas e imprescindíveis. Só que de um momento para o outro, não comunicamos, não temos energia, não podemos comprar bens essenciais porque não temos dinheiro físico, a comida do frigorífico deteriora-se, e ficamos com a sensação de estar na idade média.
Se a este contexto se juntar a falta de água e a impossibilidade de nos deslocarmos, porque as vias estão obstruídas, ou as viaturas são elétricas e sem carregamento, a pergunta é, “quem nos acode?”.
É nesse momento que damos valor à Proteção Civil, aos Militares e a Todos os Voluntários que de forma altruísta fazem tudo o que podem para minimizar as dificuldades. E por isso, Todos os que estão no terreno merecem um grande elogio, bem como a impressionante solidariedade que as pessoas, organizações e empresas têm demonstrado. Esse é um dos melhores recursos que podemos ter.
Mas não é suficiente, pois a prevenção deve começar muito antes, através da identificação das fragilidades, a todos os níveis, desde o território, passando pelas construções e entidades que deveriam contribuir para esse desígnio.
E se fosse um sismo de elevada intensidade com destruição de hospitais, quarteis de bombeiros, equipamentos sociais e habitações?
De que adiante existirem organismos com a missão de proteger, mas muito focados em proibir e criar dificuldades, do que prevenir, se todos os anos ardem dezenas ou milhares de hectares de florestas, em áreas classificadas como REN, destruindo o que se pretende proteger?
De que adianta ter um modelo de licenciamento urbano tão complexo e difícil, que leva os cidadãos à autoconstrução sem licenciamento, ou a construir sem o cumprimento das regras mínimas de segurança?
Porque se continua a contestar a construção de barragens, se um dos maiores problemas deste milénio é o acesso a água potável, sendo as barragens uma reserva de água, mas também uma forma de regularizar as cheias?
São mais as interrogações do que respostas, mas é nestes momentos que devemos refletir sobre a necessidade de opções integradas para uma prevenção mais eficaz e resposta às calamidades que temos como certas.