A azáfama é constante nas instalações da sede da Cáritas Diocesana de Leiria. Há filas à entrada, onde Joana vai anotando o nome de quem chega e algumas informações que ajudam a identificar a pessoa, o seu agregado familiar e o tipo de ajuda de que necessita.
Nas traseiras do edifício, localizado na rua Francisco Pereira da Silva, perto do seminário de Leiria, voluntários movimentam-se, quase numa dança, entre a arrumação dos artigos que entram e o registo do peso daqueles que saem para serem entregues diretamente às populações mais afetadas pela depressão Kristin, no raio de atuação da Diocese de Leiria-Fátima.
Apesar do armazém estar cheio, quase a “rebentar pelas costuras”, e serem muitas as pessoas que se dirigem ali diariamente a pedir ajuda, há muita organização no meio do que à primeira vista poderia ser um caos. Cada voluntário sabe qual é a sua função. E Lina Areia, secretária da direção da Cáritas de Leiria, está por lá para ajudar a coordenar todos os trabalhos.
Desde que a depressão Kristin assolou a região de Leiria, a Cáritas colocou logo mãos à obra para conseguir montar esta operação de recolha e entrega de bens alimentares, roupa, lonas, cordas, lanternas e muitos outros artigos que nas últimas semanas têm feito tanta falta na casa das pessoas.
De segunda-feira a domingo, dezenas de voluntários dividem tarefas entre si e trabalham para dar um bocadinho de conforto a quem perdeu tudo, a quem está desamparado e precisa de ajuda urgentemente.
Lina Areia diz que até ao momento não têm faltado voluntários. Por vezes, os pedidos para participar são tantos que a equipa da Cáritas pede aos interessados para enviarem mensagem pelo WhatsApp, onde depois um responsável dá conta das necessidades de recursos humanos existentes. “Fico muito contente, porque aparecem sempre muitos voluntários para colmatar todas as necessidades que temos. Pessoas de todas as idades têm aparecido para ajudar”, diz Lina Areia.














Nelson Costa, diretor de serviços da Cáritas de Leiria, sublinha ainda que os voluntários têm sido fundamentais para fazer a iniciativa acontecer e para conseguirem estar abertos todos os dias, respondendo ao máximo de pedidos de ajuda.
Até dia 10 de fevereiro, a Cáritas de Leiria, já tinha entregue cabazes a 547 famílias, a partir das suas instalações. Foram também distribuídas 60 toneladas de alimentos, por vários concelhos da área de intervenção da diocese.
Além dos bens alimentares e material de construção, a Cáritas também criou um fundo de emergência para apoiar as pessoas afetadas pela Kristin. Até ontem, dia 11, a Cáritas já tinha angariado mais de 1,4 milhões de euros.
Um abraço e dois dedos de conversa
Outra área de intervenção da instituição tem sido o apoio no terreno. Várias equipas de voluntários, incluindo elementos provenientes de outras cáritas diocesanas, têm saído várias vezes por semana para o terreno, visitando a população porta a porta.
Nelson Costa explica ao REGIÃO DE LEIRIA que o objetivo é fazer o levantamento das necessidades das pessoas e sinalizar os agregados que são elegíveis para beneficiar do fundo de emergência.

Mas mais do que esta componente, as visitas são uma forma de entregar logo alguns bens alimentares e produtos de higiene e, acima de tudo, dar conforto e companhia. “Temos direcionado muita a nossa ação para as zonas mais isoladas e que ficam mais esquecidas no meio de toda esta tempestade”, frisa o responsável.
Para Matilde Vieira, voluntária da Cáritas de Leiria há cinco anos, a dimensão da companhia é precisamente a missão da instituição. Embora seja um trabalho “mais demorado, mais cansativo”, é um “trabalho muito gratificante para as equipas”.
“As pessoas sentem-se sozinhas e estão sem as condições básicas a que normalmente estão habituadas, o que cria um défice emocional e toda uma crise de isolamento social, com muito mais impacto do que os danos físicos causados pela tempestade”, realça a jovem de 22 anos, natural de Santa Catarina da Serra, em Leiria.
Matilde Vieira acabou por ficar mais afeta ao armazém da cáritas, mas quando saiu para o terreno fez os possíveis e os impossíveis para dar apoio às populações, para que as pessoas não se continuassem a sentir sozinhas e abandonadas.
“O tempo que estávamos com as pessoas era para ouvir, fazer companhia. Muitas pessoas precisavam de companhia e a Cáritas está cá para isso, para ser também um pilar emocional”, conclui a voluntária.
