A eleição presidencial abre um novo capítulo na vida política portuguesa. Desde abril de 1974 vivemos um período histórico que, lentamente, parece aproximar-se do seu termo.
Durante décadas consolidou-se um modelo político, económico e social que deu estabilidade ao país, mas que hoje revela sinais claros de esgotamento.
É verdade que a maioria dos portugueses não deseja mexidas na Constituição, mas não é menos verdade que cerca de um milhão e setecentos mil cidadãos manifestam vontade de mudança, o que não pode ser ignorado.
Independentemente do texto constitucional, a herança de Abril está em debate. O país que conhecemos desde então mostra fragilidades evidentes em vários domínios e, mesmo sem sabermos exatamente para onde caminhamos, é inegável que nos estamos a afastar da matriz original. A liberdade e a democracia não estão em causa, mas a economia está.
Portugal continua preso a baixos níveis de riqueza, incapaz de romper com um ciclo persistente de pobreza relativa, e esta situação não pode prolongar-se indefinidamente.
A imigração veio para ficar e está a transformar profundamente o país e a sua economia. Em simultâneo, muitos jovens não encontram condições para se fixarem em Portugal. O SNS, a Justiça e a Educação acumulam disrupções que afetam o quotidiano das pessoas e fragilizam a confiança nas instituições.
Os partidos tradicionais perdem terreno, enquanto o Chega cresce. Seguro é uma esperança, não mais do que isso.
O futuro é uma incógnita, mas há uma certeza: estamos cada vez mais longe de Abril e o tempo não recua. Quem se recusar a encarar a realidade acabará por chocar com ela, e esse embate poderá ser trágico.
Este momento exige lucidez, responsabilidade e capacidade de diálogo político. Não se trata de negar o passado, mas de compreender os limites do presente e preparar o futuro com realismo. A política portuguesa enfrenta um teste decisivo. Ignorá-lo seria um erro com custos coletivos muito elevados.