Mais de uma centena de mortes, várias centenas de feridos, destruição de norte a sul do país (e também em Espanha), milhões de prejuízo, ventos acima de 170 quilómetros por hora.
Há 85 anos foi assim, na maior catástrofe natural que se abateu sobre Portugal no século XX. Há poucos registos do fenómeno que deixou um rasto de destruição de Sagres a Bragança, numa tempestade que se moveu de sudoeste para nordeste, e que também fez inúmeros estragos por cá naquele dia 15 de fevereiro de 1941.
Quase um mês depois, o REGIÃO DE LEIRIA – que durante duas semanas não foi publicado, talvez sofrendo os efeitos da tempestade -, descrevia: “Um terrível ciclone destruiu vidas e haveres, desmantelou instalações de serviço público, arrebatou à economia nacional e privada quantiosas [sic] fontes de receita e inumeráveis recursos”.

É uma realidade familiar a muitos por estes dias, com tantos milhares a sentirem bastante as consequências das privações e estragos provocados pelo comboio de depressões Kristin, Leonardo e Marta.
Carlos Pires, 93 anos, assistiu às duas maiores tempestades de que há registo em Portugal. Há 85 anos, ele, que percorreu boa parte do país atrás do pai, sub-chefe dos caminhos de ferro, vivia em Alverca.
Naquela tarde de fevereiro de 41, “de repente, começou a transformar-se a chuva, parecia que era de noite”. Perante a ameaça do céu, “encoberto e horroroso”, a família abrigou-se no barracão de uma quinta.
“Ficámos lá a noite, em cima da palha. Não havia frio”, por causa do “bafo das vacas mansinhas, era um ambiente bom, quente”, contrastante com o que se passava lá fora. Só voltou a casa no outro dia, deparando-se com todo o cenário: “Aquilo estava tudo alterado, as águas alagaram tudo e aquilo era um mar de água, desde o Tejo até à minha casa”. Carlos, que nasceu em Famalicão da Nazaré, recorda-se de ver em Alverca “os pastores, com manadas de vacas e ovelhas que foram apanhados pela água”.
“Apareciam a nadar, coitadas, e a fruta que havia, laranjas e aquilo tudo, foi tudo pela água abaixo”.
Segundo Paulo Pinto do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), ouvido pelo “Público” numa reportagem em 2023, “nunca houve tamanha destruição” no país como nessa tempestade de 1941. O meteorologista explicou ser raro uma tempestade atingir todo o país de forma tão intensa. “Foi uma situação catastrófica para o país”, resumiu ao jornal diário a geógrafa Adélia Nunes, autora de um dos poucos estudos sobre o tema.
Segundo o site pinhaldorei.net, o que se passou entre aquele sábado e domingo, foi “uma situação meteorológica extrema”, que “resultou da influência de uma depressão que evoluiu de forma extremamente rápida para valores muito baixos: uma ciclogénese explosiva”, como a que agora sentimos e sofremos, a 28 de janeiro de 2026.

Carlos Pires, agora a morar em Monte Real, também sentiu na pele o novo maior temporal de que há registo em Portugal. “As telhas voaram todas. Eram umas três da manhã, andava na cozinha a apanhar água e a chaminé caiu para cima do telhado. Só ouvia as telhas, as chapas a bater, foi terrível”.
Tendo assistido às duas maiores catástrofes que abalaram Portugal, Carlos Pires continua à procura de respostas. “Estamos sujeitos a isto… Como é que se forma? É uma coisa que não dá para perceber, nem para explicar”, interroga-se, ainda surpreendendo: “Como é que pode haver uma força tão grande para levar aquelas chapas pelo ar, arrancar todas aquelas árvores e as telhas? Isso mete-me uma espécie…”.