A tempestade Kristin apanhou-me com três meses de funções, como secretária, na Junta de Freguesia de Maceira. Vivo há mais de cinquenta anos na freguesia e julgava que conhecia o território que sempre chamei de meu.
Não conhecia.
A tempestade Kristin fez questão de me mostrar não apenas as vulnerabilidades que criou, mas também as que destapou.
Descobrimos idosos que vivem sozinhos e que não pedem ajuda aos filhos “para não incomodar”. Descobrimos casas onde os trabalhos de casa das crianças são feitos sem condições mínimas. Descobrimos pessoas cuja única companhia é a televisão e, que havendo ainda tantos sem eletricidade, ficaram privados de a ter.
Mas descobrimos também a solidariedade que a todos comoveu: voluntários vindos de todo o país a entregar comida e cobertores, a dar o seu tempo para fazer o que pudesse ser feito, donativos de quem está longe e se quer fazer presente, vizinhos a partilhar energia, café e abraços.
E descobrimos que, muitas vezes, quem menos tem é quem menos pede.
E ouvimos as vozes mais altas de quem se queixa com razão ou sem ela. E esperamos e desesperamos por explicações, com a sensação de que quem tem mais poder demora sempre mais a aparecer.
Não são queixumes. Fomos eleitos para estar próximos das pessoas e temos tentado, com motivação e vontade, mas não vos minto se disser que os dias têm sido difíceis para mim e para os outros três elementos do Executivo, “verdinhos” que somos, como dizem os mais velhos. Valeu-nos a liderança, firme e generosa, do presidente Vítor Santos que nos foi guiando e mostrando onde fica a Rua do Arrife, a Rua da Capital, a Rua das Lagoas… E da assistente social Diana Leitão, e dos Bombeiros Voluntários de Maceira, e dos escuteiros do Agrupamento 762 e de tantas pessoas e associações de Maceira que se dirigiram à Junta e que foram rede e apoio sem preço.
Já passaram mais de três semanas desde que a tempestade nos assolou, mas esta ainda perdura e já mostrou o que não devemos esquecer, porque conhecer um território não é apenas saber nomes, mas sim (re)conhecer potencialidades e fragilidades.
E sou outra hoje: mais consciente das desigualdades escondidas, mais exigente com quem decide e que fez com que Lisboa parecesse estar mais longe do que os 120 quilómetros que diz o mapa e mais comprometida com as pessoas.
A tempestade Kristin deitou abaixo árvores, arrancou telhados e roubou lares, mas se não formos indiferentes, não derrubará as pessoas. Saibamos agora aprender com o que esta tempestade expôs e que não fechemos os olhos ao que o vento destapou.