“Somos amigos de infância. Jogámos à bola juntos, crescemos juntos, abrimos um negócio juntos.” As vidas de Júlio Gomes, Luís Feteira e Bruno Gomes estão sintetizadas nesta frase e entrelaçadas num restaurante que olha de frente o mar da Praia da Vieira.
Ali, entre outras especialidades, servem o famoso arroz de marisco, procurado por pessoas de todo o país. Na marginal da Praia da Vieira, não é difícil imaginar o deleite de apreciar o prato, distinguido em 2011 como uma das “7 Maravilhas da Gastronomia” nacional, com a maresia no ar e o sol a bater no rosto.
Esse quadro idílico desapareceu — pelo menos para já. A tempestade do dia 28 de janeiro deixou marcas profundas no restaurante dos dois irmãos gémeos, Júlio e Bruno Gomes, e de Luís Feteira, jovens naturais da Praia da Vieira.
Acima de tudo, aquele dia trouxe “um impacto emocional muito forte, não só de ver o nosso restaurante, o nosso negócio afetado, mas toda a praia, toda a região, toda a envolvência, e encontrar este cenário de destruição”. “Emocionalmente, é muito forte, é muito forte mesmo”, reforça Júlio Gomes.
“Não só pelo nosso negócio, mas pelo que vimos ao fim de quase 20 dias: este cenário que não dá tréguas.” Até ao dia em que o vento esbofeteou a marginal da Praia da Vieira, despindo telhados e estilhaçando janelas, o negócio corria bem. A aventura dos irmãos e do amigo, enquanto sócios, começou em tempos de exceção: a pandemia.
“Este restaurante já tinha mais de 30 anos e nós já trabalhávamos na área, onde ganhámos experiência. Depois, em 2021, na época da Covid-19, surgiu esta oportunidade e nós agarrámo-la com determinação”, recorda Júlio Gomes. De então para cá, “foi trabalhar, trabalhar, trabalhar”, reforça Luís Feteira.
Quase três semanas depois da depressão “Kristin”, com ventos ainda musculados a abaterem-se sobre a praia, persiste um cenário de desolação e estragos numa povoação quase isolada, uma vez que as comunicações são residuais e a eletricidade é uma incógnita.
“Está a ser difícil ultrapassar isto porque parece que estamos sempre no mesmo dia, mas também temos a perfeita noção de que as coisas têm de se resolver a seu tempo e que as entidades competentes estão a fazer o máximo que podem”, adianta Júlio.
Retomar, reparar e reconstruir são tarefas que derrapam nas dificuldades de quem vive sem luz nem comunicações. Acresce que não é só o restaurante que necessita do esforço deste trio. Todos têm famílias que precisam de igual ou ainda mais apoio imediato.
“O nosso principal foco agora é meter os recursos a trabalhar, erguer a casa e poder contratar os profissionais adequados” para a reconstrução, tarefa que admitem poder vir a ser complicada, atendendo às necessidades que se multiplicam pela região e mesmo pelo país.
Vai ser tarefa árdua
“Sabemos, pelo que estamos aqui a presenciar, que vai demorar algum tempo até nos reerguermos”, reforça Júlio Gomes, sintetizando a tarefa que o seu, e muitos outros negócios da Praia da Vieira, tem pela frente. Com a reabertura como objetivo ainda sem data certa, os três sócios e meia dúzia de funcionários têm as vidas suspensas, aguardando que as seguradoras entrem em cena e contando ainda que alguns apoios estatais ajudem a permitir a reabertura.

“Vai ser uma tarefa árdua”, admite Bruno Gomes. As contas ainda não estão fechadas, mas há dezenas de milhares de euros de prejuízo no restaurante, calculam. “São muitos milhares, muitos, muitos milhares, seja em equipamentos eletrónicos e hoteleiros, em estruturas ou no telhado. Isto aqui foi um cenário quase de guerra.”
Embora esta não seja a época alta, há muitas reservas canceladas porque a atividade parou por completo. Ainda assim, há otimismo. Se tudo correr bem, os sócios acreditam que a Flor do Liz e a Praia da Vieira estarão capazes de voltar a receber os veraneantes de braços abertos.
“Se tivermos as ajudas certas do Estado e das autarquias e se trabalharmos todos em conjunto, tenho a certeza de que antes do verão teremos aqui uma praia ótima, espetacular e acessível.” Os três sócios não poupam elogios ao espírito de solidariedade que se seguiu à tempestade, cientes de que há muito trabalho pela frente.
Não obstante, reconhecem que fenómenos meteorológicos extremos, como o que ali foi vivido há três semanas, tendem a ser mais frequentes, colocando em crescente perigo aquela zona costeira. Não negam a evidência: “Infelizmente é um caminho que o mundo está a atravessar. São vários alertas que estão a ser lançados, vários alertas a ser ignorados, não só em Portugal, mas em todo o mundo”, reconhece Luís Feteira.
“Estas situações vão acontecer”, constituindo um desafio ao qual não se deve virar a cara. “A resiliência e o espírito de reerguer vão estar cá sempre, porque, se no futuro acontecer outra coisa parecida, cá estaremos”, enfatiza, confiante.
Júlio Gomes, Luís Feteira e Bruno Gomes confiam que a Flor do Liz vai renascer, tal como a Praia da Vieira. E ainda com mais vigor.