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Joaquim Dâmaso

Fotojornalista

Quando falha o Essencial

Quando há pessoas há semanas sem o básico, casa, água, luz, segurança, mortes, falhou-se. E quando se falha no essencial, não há narrativa que resolva. (…) nem devia ser necessário estar a escrever o óbvio.

Duvido que algum governo estivesse preparado para o que aconteceu!

Azar, estão no sítio errado à hora errada. Não vale a pena estar com rodeios. O governo falhou. E continua a falhar. Previu mal os efeitos da tempestade Kristin em Leiria e, pior do que isso, continua a subestimar o que está à vista de todos.

A ex-ministra da Administração Interna afirmou que “estão a trabalhar na sombra” e que “tudo isto é uma aprendizagem”. É reconfortante saber que, em 2026, ainda estamos em fase experimental no que toca à gestão de crises.

O ministro da Coesão Social garantiu que, para já, “não há grandes problemas porque as pessoas já receberam o ordenado”. De facto, quando falta luz, água, telecomunicações e, em muitos casos, casa, nada como um salário na conta para aquecer a sala e iluminar a cozinha.

O que se está a passar é simples e brutal: famílias sem condições mínimas de dignidade desde o dia 28 de janeiro. Sem luz. Sem água. Sem rede. Sem casa. Felizmente, como não há telhados, sempre podem tomar banho com a água da chuva. Sustentabilidade forçada. E dados móveis em abundância, pelo menos até à próxima falha. Uma espécie de modernidade resiliente, versão minimalista.

Tiros nos pés, atrás de tiros nos pés. E ainda há quem se espante com a dificuldade em avançar. Entretanto, pequenos e grandes negócios desesperam. Cada dia fechado não é apenas um dia mau, é um rombo acumulado. Como se explica tanta inércia? Não se explica. Constata-se.

Depois surge Coimbra e tudo muda, o foco do país passa para as cheias no Mondego e o governo aparece em peso. O Presidente da República distribui elogios rasgados e garrafas de vinho autografadas, num local que é, ironicamente, um exemplo histórico dos erros sucessivos de ocupação do território.

Chama-se a isto aprendizagem coletiva? Se fosse, não repetiríamos os mesmos erros geração após geração. É leito de cheia. Sabia-se. Houve tempo para prevenir, avisar e comunicar. Felizmente, correu mais ou menos bem. Quando corre bem, fala-se de eficácia. Quando corre mal, fala-se de excecionalidade.

Em Leiria, houve excecionalidade em que a previsibilidade foi ignorada por todos. Não previmos a gravidade da situação e não estamos a agir, semanas depois, com a urgência que a realidade exige. E já não é falta de informação. Não é falta de meios. Não é falta de alertas… governa-se com planeamento, antecipação e responsabilidade. Não se governa com justificações tardias nem com frases feitas para consumo mediático.

Quando há pessoas há semanas sem o básico, casa, água, luz, segurança, mortes, falhou-se. E quando se falha no essencial, não há narrativa que resolva.

Nem tudo é mau. A solidariedade das pessoas tem sido extraordinária. Muitas das nossas autoridades locais têm feito o possível com o impossível que lhes foi dado.

A resposta de proximidade tem compensado a distância do poder central. Mas não devia ser assim.

Não devia ser a solidariedade a tapar buracos de planeamento, nem devia ser necessário estar a escrever o óbvio.