Maria da Glória Silva tem 80 anos e mora com o filho Sérgio. É Maria da Glória que toma conta do filho, mas na última semana foi o filho que teve de tomar conta da mãe, porque a octogenária ficou engripada.
Até há poucos dias, esta família residente na Serra Porto Urso, na União de Freguesias de Monte Real e Carvide, ainda não tinha luz em casa. Agora já tem energia, mas continuam sem conseguir ver televisão. Maria da Glória conta que tem um rádio, mas que avariou.
Por estes dias, a única companhia que têm são mesmo os militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) que fazem visitas regulares para saber como a família está.
O militar Tiago Graça, da secção de prevenção criminal e policiamento comunitário do destacamento de Leiria, conta ao REGIÃO DE LEIRIA que esta família já é acompanhada há um ano e meio pelo programa de apoio às populações vulneráveis, mas por estes dias o acompanhamento tem sido diferente, até porque as necessidades são outras.
O nosso jornal acompanhou o cabo Tiago Graça e a guarda Inês Ribeiro na última segunda-feira, numa ida a casa de Maria da Glória. Entre dois dedos de conversa, palavras de conforto e alguns conselhos, os militares entregam à família duas taças de sopa pronta, leite, água e outros alimentos. Tiago Graça perguntou também se havia medicamentos em falta. É que desde que a tempestade Kristin bateu à porta, a GNR ativou o projeto “Farmácia Segura”, sendo os próprios militares desta valência a dirigirem-se à farmácia para adquirir medicação e entregar depois ao domicílio.
Muitas pessoas ligavam para a nossa central a pedir para tentarmos saber como estavam os familiares
Inês Ribeiro, militar da secção de prevenção criminal e policiamento comunitário do destacamento de Leiria
Em casa de Maria da Glória, as coisas já estão mais calmas. O telhado foi arranjado e os destroços que ficaram dentro de casa também já foram retirados.
Nos primeiros dias, logo a seguir à tempestade, a rua onde vive esta família foi uma das que teve de ser intervencionada pela Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) da GNR. Foi preciso abrir caminho para conseguir chegar a casa dos populares e saber se estavam bem.
Foi assim um pouco por toda a área de intervenção da secção de prevenção criminal e policiamento comunitário: na Marinha Grande, Batalha, em Leiria e Porto de Mós. Mas também em toda a área do comando distrital da GNR.
Com o decretar do estado de calamidade, o trabalho dos militares multiplicou-se. Surgiram novas “missões”, como vigiar geradores e bombas de combustível que começaram a ser alvo de furtos. Os militares eram também chamados a ajudar os bombeiros a cortar árvores, limpar vias. Houve até quem arriscasse a vida a saltar para o rio Lena, na Batalha, para resgatar um animal.
Em todas as ocasiões, a GNR tentou estar presente. E sempre que era precisa uma intervenção mais aprofundada, a secção onde trabalham Tiago Graça e Inês Ribeiro era chamada. “Tentamos chegar a todo o lado, mas muitas vezes não é possível”, lamenta Tiago Graça.
O militar conta que logo após o dia da tempestade começaram a chover chamadas de pessoas a pedirem para que a GNR tentasse saber como é que estavam os familiares, porque não conseguiam entrar em contacto com eles. As comunicações foram sem dúvida um dos maiores entraves. Até mesmo para as próprias forças de segurança. “Tivemos de fazer como antigamente e recorrer a um estafeta muitas vezes”.
E quando conseguiam chegar às casas e à fala com os moradores, muitos diziam que “não tinham água, não tinham eletricidade para fazer uma sopa, uma coisa tão simples”.
E a ausência de energia continua, ainda esta semana, a ser a realidade de muitas pessoas. Em várias freguesias de Leiria, há ainda pessoas às escuras: em Monte Redondo, Souto da Carpalhosa, Colmeias e Memória, Coimbrão, Santa Catarina da Serra, Monte Real e Carvide.
Tiago Braga e Inês Ribeiro notam também que existe “muita vergonha social”. “Há pessoas que têm até vergonha de pedir ajuda para repor o telhado”.
A dupla antecipa o que irá acontecer muito em breve: “Vamos enfrentar situações de desemprego, não vai entrar dinheiro na casa das famílias. isto vai levar ao aumento da criminalidade, porque as pessoas enervam-se e estão exaustas”.
“Vai ser um culminar de situações e a bolha vai rebentar. Vamos ter muitos problemas de saúde mental”, remata Tiago Braga, acrescentando que aconteceu o mesmo após os incêndios e na pandemia de Covid-19.
Um dos maiores entraves foram as comunicações. Até mesmo as comunicações internas. Tivemos de fazer como antigamente e recorrer a um estafeta
Tiago Graça, militar da secção de prevenção criminal e policiamento comunitário do destacamento de Leiria
E embora o estado de calamidade decretado pelo Governo tenha chegado ao fim no domingo passado, a verdade é que a região continua em alerta, com muito trabalho pela frente.
Tiago Braga assegura que a próxima fase “será ainda mais desafiante”. “Todo o dispositivo tem de estar sensível às pequenas alterações. No programa Escola Segura, por exemplo, quando retomarmos as ações de sensibilização novamente, de certeza que vamos notar estas alterações nas crianças e nos jovens. E aí vamos ter de ir saber o que se passa na casa das famílias”.
É uma bola de neve que parece não ter fim, mas a dupla garante que o trabalho da GNR está “a fluir bem”.