Encontrámos Maria de Lurdes e o marido, Jorge Mota, no passado dia 13, juntamente com alguns vizinhos, na rua por onde caminharam uma vida inteira, mas que agora praticamente já não existe.
O cenário é chocante, parece retirado de um filme: a estrada que leva até à casa deste casal, em Covas da Cumieira, na freguesia de Pombal, está repleta de enormes fissuras. Em alguns troços, abateu por completo. Uma fita da proteção civil marca o ponto a partir do qual não se pode passar. É depois dessa fita que as fendas aparecem e a paisagem se transforma em escombros.
A equipa do REGIÃO DE LEIRIA deixa o carro e vai ao encontro de Maria de Lurdes, que já lá está à nossa espera, com umas galochas calçadas, um pequeno saco de milho e uma lata de ração húmida numa das mãos. Recebe-nos com a maior simpatia, tanta quanto possível. Já mais à frente na estrada, caminha Jorge Mota acompanhando pelos vizinhos, amparando-se no guarda-chuva que leva fechado na mão direita.
Enquanto seguimos devagar pela estrada, contornando as enormes fissuras e tendo cuidado para não cair nos escombros, o sol — raro por estes dias — ilumina um vasto rasto de destruição, que se estende por muitos metros. Para onde quer que se olhe, sobressaem fendas profundas.
O terreno do lado esquerdo, onde se encontra a casa de Maria de Lurdes e Jorge Mota, abateu. O solo abriu-se, engoliu um poço que ali existia e arrastou a casa mais de 15 metros para a frente. As fendas fizeram com que o terreno e a estrada se desintegrassem. Um enorme poste tombou e os cabos ficaram suspensos.
Maria de Lurdes conta que tudo começou há mais de uma semana. “O meu marido estava a podar ali no terreno [atrás da casa] quando viu um rasgo. A terra estava a partir-se”.
Mas o episódio que deixou o casal em estado de alerta foi quando o poço simplesmente desapareceu. “A terra engoliu-o”, conta a septuagenária, repetindo que nunca viu nada assim. “Não acreditava que isto fosse possível”.
No sábado, dia 7 de fevereiro, o casal deparou-se com fendas ainda maiores no terreno. No dia seguinte, a proteção civil deslocou-se ao local e Maria de Lurdes e Jorge tiveram de abandonar a casa onde viveram mais de 50 anos. Na hora da saída, só puderam levar a cama, o frigorífico, a máquina de lavar roupa e “pouca roupita”.













O rebanho de ovelhas e as cabras ficaram com um vizinho. Os porcos foram levados para casa de outro amigo. Para trás ficaram quase todos os bens da família. Uma vida inteira de memórias e trabalho. “Perdemos o que construímos numa vida inteira. Quero vestir roupa, tinha aqui tanta roupa e agora não sei onde ela está”, diz Maria de Lurdes, tentando manter a calma.
Enquanto vai descrevendo o sucedido, a moradora procura pela galinha e pelo galo que diz que não conseguiu levar quando saíram de casa. Por isso mesmo, estava a regressar ali para lhes deixar milho.
Não demora muito até avistarmos as duas aves. Maria de Lurdes apressa o passo para espalhar milho junto a um portão que o vento não deixa abrir. Ainda tenta aproximar-se da galinha e do galo, mas sem sucesso. Eles fogem à nossa chegada e só quando nos afastamos um pouco é que se aproximam do milho, demonstrando estarem famintos.
Depois de alimentar as aves, paramos a observar as enormes fendas que atravessam a fachada da casa, de cima a baixo. Na pequena varanda, há também um rasgo muito profundo. Maria de Lurdes fica parada por momentos, a olhar para os vasos, e comenta, quase apática: “Até tenho medo de tirar daqui as flores”.
Mais à frente, do lado direito, estão os escombros do que era o palheiro. E alguns metros adiante, do lado esquerdo, encontra-se a segunda habitação, que pertencia ao pai de Jorge Mota, e que a filha do casal, Mónica, planeava reconstruir para lá viver. “Agora foi-se tudo”, comenta Jorge, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.
Tentando amenizar o ambiente, a equipa do REGIÃO DE LEIRIA lembra Maria de Lurdes da outra tarefa que a levou a regressar à casa: procurar o gatinho cinzento e deixar-lhe comida e água. Depois de muito chamarmos o felino e de entrarmos na casa para o procurar, ele surge no pátio atraído pelo cheiro da ração, mas bastante assustado.
A seguir ao pátio há outro espaço, com currais vazios e onde estaria a capoeira. Jorge pede à esposa que entre para dar comida a meia dúzia de pombos que também ficaram para trás. E lá estão eles, a voar de um lado para o outro: seis pombos brancos e pretos.
Após Maria de Lurdes espalhar milho também ali, um dos vizinhos pergunta se quer que ele tente apanhar a galinha e o galo. Ambos tentam, mas sem sucesso. O mesmo acontece com o gato, que se esquiva assim que nos aproximamos.
















Quando nos preparamos para sair, Maria de Lurdes está já com as mãos novamente ocupadas: numa leva um jerrican de óleo que encontrou para pôr numa motosserra, na outra um casaco e um saco com objetos que tinham ficado para trás: pequenos resgates de uma vida interrompida.
Por estes dias, o terreno em Covas de Cumieira continua a ceder e é desaconselhada a permanência de pessoas naquele local. A junta de freguesia e a Câmara de Pombal estão a elaborar um estudo e a procurar uma solução habitacional para a família.
O casal tenta manter a esperança de que poderão chegar alguns apoios, mas não sabem como nem quando, uma vez que não tinham seguro.
Com a vida em suspenso, Maria de Lurdes e Jorge Mota ignoram o perigo e regressam ocasionalmente à casa para alimentar os animais que não querem deixar o lar. Em cada uma destas visitas, revivem o pesadelo e tentam resgatar mais algum vestígio da vida que perderam.
Pensar no futuro é um exercício difícil para o casal, assim como encontrar alguma distração. O medo instalou-se. Jorge não sabe como continuar, Maria de Lurdes receia pelo estado do marido e admite ter medo de voltar a viver ali. Há uma dor profunda neste casal, que viveu o maior pesadelo das suas vidas provocado pelas várias tempestades que assolaram a região nas últimas semanas.










