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Uma refeição quente e brincadeiras ajudam a aliviar o stress de quem está todo o dia no terreno

Em Pombal, no salão da Capela da Charneca, está a funcionar desde o início do mês uma cantina improvisada. São voluntários da terra que confecionam e servem as refeições.

FOTO: CS

Por estes dias, ter uma refeição quente é um luxo. Não só para os milhares de pessoas que continuam sem luz em casa, como também para os profissionais que estão no terreno desde o primeiro dia, a ajudar a desimpedir estradas, a reparar telhados… envolvidos em diversas ações de limpeza.

Para ajudar a aliviar o stress do dia a dia destes profissionais – desde técnicos das autarquias a bombeiros e fuzileiros – a presidente da Junta de Freguesia de Pombal decidiu criar uma espécie de cantina, em articulação com o município de Pombal. Mas não é uma cantina qualquer: é uma cantina especial, com comida confecionada por voluntários da terra, com conforto; um recuperador de calor que aquece os dias e ajuda a secar as fardas, música ambiente para animar e uma estação de carregamento de aparelhos eletrónicos.

Desde 2 de fevereiro, todos os dias, aos almoços e aos jantares, mais de 50 pessoas passam pelo salão da capela da Charneca, na freguesia de Pombal. Há sempre sopa, prato principal acompanhado por salada e, para sobremesa, fruta, gelatina ou iogurte. Não falta também a água, sumo ou vinho. E no final, servem-se cafés e um digestivo para aquecer a alma e o corpo.

“Antes íamos pedindo refeições ao municipio, mas era sempre uma sandes e sopa. Fazia falta a comida de conforto, uma refeição quente no prato, com uma lareira e música ambiente para lhes dar uma energia positiva”, refere Carla Longo, presidente da Junta de Freguesia de Pombal.

As refeições na Charneca são mesmo “um luxo”, relatam vários profissionais, dizendo que a comida é bastante boa.

Uma das responsáveis pela comida saborosa que ali se serve é Júlia Mendes. Nunca esteve ligada à restauração e diz que faz “tudo a olho”, mas o certo é que faz mesmo magia.

Reformada e a residir na Charneca, Júlia ficou a saber desta iniciativa há pouco tempo. Decidiu inscrever-se para poder ajudar e sentir-se mais útil, mas também ocupada, uma vez que já tinha reparado todos os danos que sofreu na sua habitação.

“É um gosto poder servir estes profissionais”, diz, já com bastante cansaço acumulado.

As refeições servidas são cozinhadas na hora pelas voluntárias. É a Câmara de Pombal quem custeia os alimentos Foto: CS

A ajudar Júlia estão mais cinco mulheres. A mais nova é Joana Lopes, 20 anos, que aproveitou a pausa letiva para se inscrever também como voluntária. Conta que a mãe já estava a ajudar na confeção das refeições e então tem vindo com ela. Costuma estar responsável pela limpeza do espaço no final de cada refeição, por lavar a loiça e servir os profissionais. Na verdade, todas fazem de tudo um pouco.

As cozinheiras costumam chegar de manhã, a partir das 10 horas para preparar os ingredientes. Por volta das 12h15, o almoço já está pronto a servir e é por essa hora que os profissionais começam a chegar. Os jantares são servidos entre as 18h30 e as 21 horas.

Além das voluntárias, os elementos da Marinha Portuguesa também costumam ajudar a servir cafés e a limpar o espaço, sempre que têm disponibilidade.

Convívio e palavras de conforto

Já lá vão duas semanas consecutivas em que os profissionais estão a trabalhar em Pombal, e a exaustão é muita. Por isso mesmo, estes momentos de convívio são fundamentais para aliviar o stress e toda a pressão.

Quem o confirma é Flávio Silva, bombeiro em Carnaxide, que está em Pombal desde 10 de fevereiro, a trabalhar em articulação com uma equipa da Câmara de Oeiras.

Apesar do trabalho principal dos bombeiros ser zelar pela segurança de todos os envolvidos nas operações, também ajudam nos trabalhos. Afinal, qualquer par de braços é bem-vindo neste “cenário de guerra” que assola toda a região.

“Somos um só”, remata Flávio.

Antes de vir para Pombal, Flávio esteve a ajudar em Alcobaça, Pataias e Leiria. “Na zona de Pataias, como é ao pé do mar, estava mesmo caótico”. Assume que nunca viu nada assim e defende que Portugal e “nenhum país” está preparado para lidar com estas catástrofes.

Nuno Guerreiro, chefe de divisão na Câmara Municipal de Oeiras, está a coordenar as duas equipas que foram destacadas para vir dar apoio a Pombal, sobretudo pela ligação histórica existente entre estas duas cidades, através do Marquês de Pombal.

O responsável conta que está mais responsável pelo “backstage”, a coordenação de todas as equipas, incluindo uma que tem estado na Marinha Grande. É apenas à terça e à sexta-feira que vem a Pombal e junta-se aos convívios na Charneca. No terreno, é Frederico Correia quem está responsável pelos trabalhos.

Em conversa com o REGIÃO DE LEIRIA, a dupla conta que as equipas de Oeiras chegaram de forma faseada: a primeira no início de fevereiro, com cinco camiões carregados de materiais de construção e um contigente de 16 pessoas; a segunda uma semana depois. Quinze pessoas vieram ajudar na reparação de telhados, no corte de árvores, na retirada de outdoors, entre outras operações, por todo o concelho de Pombal, sob a liderança de Frederico Correia.

Nuno Guerreiro garante que não estavam à espera de encontrar este cenário em Pombal. “As imagens não mostram o que realmente se passa no terreno”.

Um dos casos que mais tocou a equipa foi a situação de dois irmãos de 80 anos que vivem numa habitação com condições muito precárias e estão sem água, sem luz, “com a casa a rachar a meio”. Para os ajudar, a equipa acabou por lhes deixar toda a comida que tinham nos veículos.

“Eles dizem que esta experiência mudou a forma de verem a vida. Estão aqui de corpo e alma, como se fossem de Pombal”, refere Nuno Guerreiro, dando conta do feedback dado pelos profissionais no terreno.

Flávio Silva também foi a casa daqueles munícipes e diz que ficou bastante comovido. Perguntou inclusive a um dos senhores se não queria uma casa nova. “Ele respondeu que ficava contente se restaurassem aquela”.

“Temos visto mesmo muitas situações em que as pessoas estão a viver de forma percária”, frisa o bombeiro.

Embora as situações sejam difíceis de gerir, o carinho da população e dos autarcas locais tem “dado motivação para querer ajudar mais”, frisa Nuno Guerreiro.

Frederico Correia e Nuno Guerreiro estão responsáveis pela coordenação das equipas do município de Oeiras. Ao centro, na foto, está Carla Longo, a presidente da Junta de Freguesia de Pombal Foto: CS

Amizades que ficam

Nestes momentos de convívio, há muitas amizades que nascem e ficam para a vida. Flávio e Frederico são exemplo disso. Trabalharam juntos pela primeira vez nesta “missão” em Pombal e desde o primeiro dia que sentem que já trabalham lado a lado “há 20 anos”. Garantem que esta amizade irá ficar para a vida.

Entretanto, as equipas de Oeiras e os bombeiros de Carnaxide já desmobilizaram do terreno, no início desta semana.

Por cá, deixam um rasto de apoio, muitos sorrisos, conforto e força. Com eles, levam também uma vasta experiência, “uma outra forma de ver a vida” e muitas palavras de agradecimento e reconhecimento.

Às vezes jogamos à bola e quando estamos na estrada metemos sempre música. O convívio é muito importante, mesmo

Flávio Silva, bombeiro em Carnaxide

Carla Longo diz que “nova fase” vai implicar outras intervenções nas habitações

Na primeira fase de intervenção procedeu-se à limpeza e desobstrução das vias, para que as equipas de reabilitação conseguissem chegar às infraestruturas. Bombeiros, forças de segurança, Exército e técnicos de autarquias, entre outros, estiveram no local a ajudar a população. “Conseguimos colocar pensos rápidos nos telhados”, frisa a presidente da Junta de Freguesia de Pombal.

Mas a partir de agora “vão começar a aparecer outros problemas”. “Os efeitos desta carga de água que caiu e continua a cair vão-se começar a notar de forma muito evidente, a curto prazo. As pessoas vão ter de fazer outras intervenções, que não só na cobertura [dos telhados]”. “Tudo o que é madeira, gessos, lã de rocha, ficou afetado”.

Além disso, ainda há muitas famílias no concelho de Pombal sem energia. Também não têm comunicações nem conseguem ligar a televisão, acrescenta Carla Longo.

No entender da autarca, as equipas da E-Redes “têm sido incansáveis”, mas ainda “existe alguma descordenação no terreno”. “Nós vamos reportando situações e nem sempre elas têm feedback. Há aldeias onde três ou quatro casas ainda não têm luz e é uma revolta enorme para essas pessoas. Mas muitas vezes são situações de danos, postes que ainda estão caídos, avarias nas próprias habitações”, realça.

Carla Longo lembra ainda que é “humanamente impossível chegar a todo o lado”. E a ausência de comunicações, que afetou todos, não ajuda. “É muito difícil trabalharmos sem comunicações. mandamos uma equipa para o terreno e temos de ir ter com ela para saber como estão as coisas”, explica.


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