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Depois do vento, o silêncio: a tempestade que também passou pelo cemitério de Mira de Aire

A normalidade possível foi sendo reconstruída entre campas desalinhadas, comunicações intermitentes e solos encharcados.

A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição visível em telhados, árvores e infraestruturas. Há um território em que, embora de forma menos falada, o impacto também chegou. No universo discreto dos cemitérios e das agências funerárias, a tempestade não passou despercebida.

Em Mira de Aire, a normalidade possível foi sendo reconstruída entre campas desalinhadas, comunicações intermitentes e solos encharcados.

Num aviso público, a Junta de Freguesia de Mira de Aire apelou a todos os que têm familiares sepultados no cemitério local para se deslocarem ao espaço e verificarem se “vasos, jarras, flores ou outros acessórios se encontram nos respetivos lugares”. Na sequência da tempestade Kristin, vários destes objetos foram deslocados, podendo não estar junto dos terrenos correspondentes.

O cenário, embora longe de catastrófico, revelou-se suficientemente perturbador para exigir atenção. Segundo Rui Venda, gerente de uma agência funerária de Mira de Aire, o cemitério “registou alguns danos, mas não foi o mais prejudicado”, elogiando a prontidão da Junta na resposta às ocorrências.

As próprias instalações da funerária também não escaparam. “O vento levantou algumas telhas. Chovia um pouco dentro do escritório”, relata. Durante os primeiros quatro a cinco dias, a atividade decorreu sob constrangimentos acrescidos: “Recorremos a um gerador. Estivemos praticamente sem comunicações fixas e sem Internet. A rede móvel era muito fraca e instável.”

Num sector onde a coordenação é fundamental – com hospitais, famílias, paróquias e fornecedores -, a falha nas comunicações representou um obstáculo sério. A maioria dos corpos preparados pela agência provém do Hospital de Leiria, que, segundo Rui Venda, manteve capacidade de contacto, embora tenham existido “algumas horas com atrasos por dificuldade de comunicações”.

Também o excesso de água trouxe constrangimentos práticos. “As terras estavam moles por causa da chuva”, explica. Ainda assim, foi possível articular com o pároco local e assegurar a realização das cerimónias. “As cerimónias decorreram. Mas não deixa de ser estranho”, admite, referindo-se ao ambiente atípico em que os funerais tiveram lugar.

Ainda assim, a missão manteve-se. “Conseguimos, apesar de algum custo, manter a nossa missão, porque as pessoas continuam a falecer”, afirma, numa frase que sintetiza a natureza incontornável da atividade funerária. Mesmo em contexto de tempestade, o ciclo da vida – e da morte – não só continua como não escolhe horas ou circunstâncias.


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