Procurar
Assinar

Subscreva!

Newsletters RL

Saber mais

Inês Silva

Professora

A vida é um fósforo

Na manhã de 28 de janeiro, saí de casa que fica a 40 km de Leiria. A estrada parecia pressentir o cenário que me aguardava.

É uma forma consagrada que atravessa o uso comum, dita por pessoas mais velhas, dotadas de experiência. Surge como metáfora em conversas do quotidiano, embora encontre também lugar na literatura e noutras áreas da expressão humana. Não chega a ser máxima ou provérbio; é antes um aviso sobre a fragilidade da existência.

O fósforo começou a arder na noite de 28 de janeiro. Acendeu-se como um rastilho de bomba, e o vento, esse soberano imprevisível, cujo poder pode surpreender até a própria mãe-natureza, empurrou a chama da cabeça ao corpo inteiro, no tempo em que uma bomba cai, um avião de guerra se despenha ou uma onda gigante se deixa cair, desamparada, enfurecida, lançando um oceano de destruição.

Na manhã de 28 de janeiro, saí de casa que fica a 40 km de Leiria. A estrada parecia pressentir o cenário que me aguardava. A área em redor do meu local de trabalho tinha o aspeto de uma obra deixada por um dos mais furiosos furacões. Lá dentro, sem luz, alguns estudantes faziam exames, carregando no corpo a ansiedade da noite e o peso da ausência de notícias.

Seguiu-se o caminho até ao Hospital de Santo André, onde precisava de ir por causa da cirurgia de um familiar, ocorrida na noite anterior, e de quem nada sabia, por não haver comunicações. Sem rede, sinais de trânsito ou semáforos, sem praças transitáveis, ruas desimpedidas ou fachadas intactas, a cidade era um corpo despido, violentado, de pulso lento.

Avancei, em sobressalto, consciente de que a vida é um fósforo, e de que há fósforos que ardem mais depressa do que outros, sem sequer esperarem uma mão que os acenda.