As palavras têm um poder que nem sempre medimos, as palavras parecem pequenas, mas têm, além de outros, o poder de incluir ou de excluir. Não são inofensivas. Moldam a forma como vemos o mundo e como vemos os outros. Uma palavra dita pode abrir um caminho ou levantar um muro.
Quando falamos de deficiência, aquilo que dizemos revela mais do que imaginamos. Durante décadas, habituámo-nos a usar palavras que reduzem a pessoa à sua condição: “deficiente”, “inválido”, “portador”. Termos herdados de um olhar antigo, centrado apenas na doença e no diagnóstico. Um olhar que esquece a pessoa e ignora o papel da sociedade.
A deficiência não existe apenas na diversidade humana, existe nas barreiras que a sociedade cria: na escola que não se adapta, na cidade que não elimina barreiras, na comunicação que exclui. E existe, muitas vezes, na linguagem que usamos no dia a dia.
Continuamos presos a dois extremos: a pena ou a exaltação. Ou se olha para as pessoas com deficiência como “coitadas”, ou se aplaudem como “heróis” que se superam. Entre estas duas narrativas sobra pouco espaço para aquilo que deveria ser mais simples: reconhecer que a diversidade faz parte da condição humana.
Mas as ideias não vivem apenas nas atitudes. Vivem nas palavras.
No discurso público e mediático repetem-se expressões como “a economia está coxa”, “a ministra é autista”, “andam todos cegos” ou “o governo continua autista”. São ditas como metáforas banais, quase automáticas. No entanto, carregam uma mensagem clara: associam a deficiência a algo negativo, defeituoso ou indesejável, é assim que o capacitismo se instala na linguagem, de forma silenciosa e quase invisível.
As palavras não são neutras. Mesmo quando não existe intenção de ferir, podem reforçar estigmas e apagar identidades. Pelo contrário, quando escolhemos corretamente, ajudamos a construir uma sociedade mais consciente e mais justa.
Não se trata de “fiscalizar as palavras”. Trata-se de respeito.
Falar corretamente é colocar a pessoa em primeiro lugar. É reconhecer que ninguém se resume a um diagnóstico.
Por isso, hoje privilegiam-se expressões como:
– Pessoa com deficiência
– Pessoa com incapacidade
– Pessoa com diversidade funcional
– Pessoa neurodivergente
– Pessoa no espetro do autismo
– Pessoa com necessidades específicas
– Pessoa com mobilidade condicionada ou reduzida
– Pessoa que usa cadeira de rodas
– Pessoa com deficiência visual ou pessoa cega
– Pessoa com baixa visão
– Pessoa Surda (falante de Língua Gestual Portuguesa; muitas não se identificam como pessoas com deficiência)
– Pessoa surda
– Pessoa com deficiência auditiva
– Pessoa com deficiência intelectual ou cognitiva
E convém relembrar: diz-se Língua Gestual Portuguesa (LGP), não “linguagem gestual”, a LGP está reconhecida como língua na Constituição da República Portuguesa, desde 1997.
Pode parecer um pormenor linguístico. Não é!
A linguagem molda mentalidades. E as mentalidades moldam o mundo em que vivemos.
Por isso, antes de falar, vale a pena pensar nas palavras que escolhemos. Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva começa muito antes das leis ou das rampas.
A inclusão começa na forma como respeitamos as pessoas.