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Locais de encontro, parques de merendas lutam para recuperar da tempestade

Dias de calor é para muitos sinónimo de piquenique. No entanto, pela região há parques de merendas que perderam as sombras, as churrasqueiras e até mesmo as mesas de merendas. São alguns dos locais onde ainda é visível a destruição deixada pela tempestade.

Na Charneca do Nicho, no Souto da Carpalhosa, a zona de pinheiro-bravo ficou totalmente arrasada FOTO: MG

Sol, calor e uma mesa farta. Entre convívios de família e churrascadas com amigos, os parques de merendas ganham vida com a chegada do bom tempo, mas este verão o cenário poderá ser diferente, uma vez que nem estes espaços resistiram à passagem da tempestade Kristin. As árvores que antes eram sombra tombaram com a força do vento e, em alguns casos, apenas as mesas que ‘sobreviveram’ dão sinais do que aqueles locais foram.

É o caso do Parque de Merendas da Barosa, no concelho de Leiria. Conhecido por ter as mesas sempre cheias e alguma urgência na reserva de lugar, o local está irreconhecível. A vedação está partida, bem como algumas das mesas, há danos na churrasqueira e as árvores que antes garantiam sombra quase total, desapareceram. Nem mesmo a pérgola instalada na zona mais central do parque resistiu à ventania. No entanto, a reconstrução está à vista.

“Neste momento fizemos pedidos de orçamento, alguns já chegaram, que temos de analisar, para depois poderem ser adjudicados”, adianta Paulo Clemente, presidente da União de Freguesias de Marrazes e Barosa. Estes orçamentos dizem respeito à vedação do parque, às mesas e à pérgola e ainda à bomba que permite o abastecimento de água nas casas de banho e a rega dos espaços verdes.

De acordo com o autarca, a plantação de árvores “também está para orçamentação” e o objetivo é colocar exemplares “já com algum porte” para que a reposição da paisagem e de sombras aconteça mais rapidamente.

Como será o próximo verão? “Não será como antigamente, não teremos as árvores tão depressa do mesmo tamanho, mas o parque de merendas estará a funcionar normalmente, com todas as infraestruturas recuperadas”, garante Paulo Clemente, sublinhando que “não haverá sombras como havia durante os próximos cinco anos”. Já no que diz respeito às infraestruturas, a expetativa é que esteja tudo reposto entre junho e julho.

Classificado como “Tesouro Nacional”, o Parque de Merendas do Vale do Lapedo tem características que tiram o fôlego aos visitantes. A sensação hoje será a mesma, mas por motivos bem diferentes. Além da queda de árvores, o próprio acesso ao parque está impedido.

Segundo Paulo Felício, presidente da União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista, a rua do Lapedo, onde passa uma estrada municipal, está intransitável devido “ao desmoronamento de terras do vale”. “Mesmo no acesso ao próprio parque, a lama chegou quase ao estacionamento e ao bar, que dão para utilizar, mas não na sua plenitude”, acrescenta.

O autarca sublinha que a intervenção naquele local terá de ser “estruturada e em articulação com o Município”, até porque os terrenos “ainda estão completamente encharcados, não há condições para fazer grandes trabalhos”.

No último sábado à tarde, vários escuteiros brincavam no parque de merendas de Amor. O sol convidava para um passeio no espaço verde, mesmo com o barulho de alguma maquinaria que procurava limpar os destroços causados pela depressão.

O sinal de trânsito “trabalhos na via” bloqueava o acesso à ponte e às zonas das mesas, churrasqueiras e sanitários. Foi por ali que se registaram os maiores prejuízos no parque de Amor. Um pequeno assador foi derrubado, empurrado pela queda de uma árvore de grande porte e o baloiço sobre o ribeiro, com a palavra “Amor” escrita num coração de madeira no topo, local de eleição de muitos casais, também ficou destruído.

Outras infraestruturas, como mesas, bancos, candeeiros, pavimento e a ponte pedonal sofreram estragos e a iluminação pública, tal como na rua principal, ainda não foi restabelecida. Mas a pouco e pouco o espaço parece reerguer-se. É, pelo menos, essa a convicção de Rui Santos, um dos proprietários da Tasca da Fonte, que reabriu o espaço a 14 de fevereiro e ali recebe diariamente dezenas de pessoas, quer numa oportunidade para uma pausa, quer para quem vem ao parque buscar água.

Na tasca, voaram uns acrílicos, entretanto repostos, mas o serviço mantém-se operacional. “Agora só com o tempo e o sol”, desabafa.

Na freguesia do Souto da Carpalhosa, quer o parque de merendas do Vale da Pedra, quer a Charneca do Nicho foram severamente afetados. Ambos concorrem ao apoio que a marca Pingo Doce está a atribuir na região, no âmbito da campanha SOS Bairro, que atribui 85 mil euros a cada um dos cinco projetos mais votados nas cinco lojas do concelho de Leiria e Marinha Grande.

Sem mesas de piquenique, foram os 12 quiosques em madeira os principais atingidos com a tempestade Kristin. Base de apoio para as coletividades durante os festejos ali realizados, sobretudo nas tasquinhas em setembro, algumas estruturas voaram, outras têm pinheiros caídos sobre os quiosques, o que anula a capacidade de realizar eventos.

A ambição é de construir novos quiosques e devolver o dinamismo que ali fervilha, mas o cenário em redor será bem diferente nos próximos anos. É que a Charneca do Nicho possuía um parque florestal extenso, com cerca de 160 hectares. Há mesmo quem considere que tinha o “melhor povoamento de pinheiro-bravo” do país, resistindo ano após ano, aos ventos e fogos.

Kristin derrubou muitos dos exemplares que ali existiam e, atualmente, é no chão que se encontram esses troncos, cortados, apresentando dezenas de anéis de crescimento que param em 2026.

Entre 17 e 19 de julho, o parque de lazer da Ilha, no concelho de Pombal, irá receber mais uma edição do Ti Milha. Cíntia Marques, responsável da organização do festival, conta ao REGIÃO DE LEIRIA que o recinto “não está bonito” depois da tempestade, “sofreu danos” e “faltam sombras”.

Na zona das mesas de merendas, os estragos foram maiores e o terreno ainda está com muita água, o que tem condicionado as ações de limpeza. Quer a autarquia local, quer voluntários estão a aguardar pelo calor para proceder à limpeza do espaço, revela, tornando-o aprazível para o verão e o festival.

“O parque é um espaço que dá muito à comunidade e o Ti Milha é especial porque acontece num parque rodeado de árvores. Vamos trabalhar para perceber como podemos organizar o festival, porque perdemos muita sombra, que para nós era importante, sobretudo no dia do piquenique, com a participação de muitas famílias”, diz.

Situado onde a cidade acaba e o Pinhal começa, o generoso Parque de Merendas da Portela, na Marinha Grande, com cerca de quatro dezenas de mesas, ostenta muita sombra e esquilos q.b.. Esta era uma descrição possível daquele parque até 28 de janeiro.

A tempestade retirou-lhe a identidade. Nenhuma árvore está intacta, quase todas jazem tombadas num “Mikado” macabro. Mesas e parque são coisas do passado. No local, o nosso jornal encontrou visitantes teimosos. Mário Lucas explica que, desde que se aposentou, era ali que, todas as tardes, ia encontrar sossego. Ainda o faz. Mas o cenário é bem diferente. “Isto era um espetáculo”.

Depois da tempestade, encarar o parque desfeito “foi difícil. As lágrimas vieram aos olhos”. De vez em quando, devolvem-lhe o sorriso: “tive o prazer de ver um esquilo; antes eram bastantes e agora é muito raro vê-los”. “Temos de aguentar com isto”, lamenta.

Apesar do cenário de destruição em muitos locais de merendas na região, no Parque do Vale da Moira, na freguesia da Boa Vista, em Leiria, há já sinais de esperança. Na segunda-feira, 23 de março, mais de 130 crianças do Jardim de Infância e da Escola Básica da Boa Vista ajudaram a plantar árvores e a dar uma nova vida ao espaço, numa parceria entre a União de freguesias e a associação das bioindústrias de base florestal Biond.

FOTO: Joaquim Dâmaso
Mais de 130 crianças ajudaram a plantar árvores do Parque de Merendas do Vale da Moira, na Boa Vista, em Leiria

“Associámos a escola porque não queremos fazer apenas por fazer, há também aqui uma lógica de educação e sensibilização ambiental”, explicou Paulo Felício, presidente da União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista.

O autarca admite que o trabalho não ficou concluído naquele dia, mas que representou “o lançamento da primeira árvore” e o parque reunirá as condições de segurança para que possa receber pessoas no próximo verão.

Depois da chegada da primavera e do regresso do sol esta semana, que melhor sinal de reconstrução do que o sorriso das crianças que, curiosas e alegres, ajudam a plantar as árvores que um dia irão ver crescidas.

Plataforma online alavanca projeto para recuperar milhões de árvores em Leiria

FOTO: Rui Miguel Pedrosa/CML

Acompanhar e até participar na recuperação da floresta de Leiria através de uma plataforma online é uma das apostas mais visíveis do esforço de replantação do concelho de Leiria, na sequência dos estragos causados pela tempestade de dia 28 de janeiro.

Chama-se “RePlantar Leiria” e foi no jardim da Villa Portela, em Leiria, dia 21, o Dia da Árvore, que um cedro de 19 anos, foi simbolicamente plantado para assinalar a data e o arranque do projeto de rearborização. O formato digital foi o meio escolhido para o fazer chegar ao público em geral permitindo “selecionar áreas, identificar as espécies que vão ser plantadas num determinado local” e acompanhar a sua evolução, explicou o vereador do Ambiente, Luís Lopes.

A ferramenta surge como ponto de contacto num processo que o autarca assume como exigente e de longo prazo. “Estamos habituados a ter florestas de monocultura, maioritariamente assentes no eucalipto e no pinheiro. Teremos de ter uma floresta bastante diversa”, sublinhou, defendendo um modelo assente em “mosaicos agrícolas e florestais” que equilibrem a gestão do território.

Embora assumindo que terá de existir um esforço de adoção de diferentes espécies de plantas para fazer face ao desafio criado pelos fenómenos meteorológicos extremos, o autarca não especificou que espécies passarão a ser privilegiadas.

Já Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, lembrou que este processo conta com a consultoria técnica do arquiteto paisagista Paulo Farinha Marques, professor da FCUP, num plano focado na diversificação da floresta. Na cidade, o Jardim Luís de Camões e Parque do Avião, Castelo de Leiria e Villa Portela estão entre as prioridades mais imediatas. Este projeto, todavia, estende-se a todo o concelho. E prevê soluções diferenciadas no terreno, combinando espécies de crescimento rápido e lento.

O objetivo é claro: “criar zonas de sombra mais rápido, para permitir o controlo dos matos e das infestantes e das invasoras”. Mas a tecnologia, por si só, não resolve o essencial. Grande parte da floresta está em mãos privadas e o sucesso do plano dependerá da adesão dos proprietários.

“É preciso vontade e compromisso”, reconhece o vereador, a par de financiamento e capacidade técnica. Os mecanismos legais criados após 2017, como as operações integradas de gestão da paisagem, poderão permitir uma intervenção mais coordenada, mas continuam dependentes de enquadramento jurídico e de recursos financeiros.

O desafio é, aliás, assumido como inédito. Este projeto “é talvez o mais importante” do programa ReErguer Leiria, tendo em conta a “tragédia florestal” que ocorreu “em apenas duas horas”, aponta Gonçalo Lopes.

A produção deste artigo é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, liderado pelo EJC, em parceria com a REVOLVE.

CSA/JM/MG


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