Era a área florestal de Leiria por excelência mas, como tantos outros espaços naturais da região, ficou quase totalmente dizimada com a tempestade de 28 de janeiro. A Mata dos Marrazes como a conhecíamos e vivíamos desapareceu.
Agora é tempo de dar outro fim às muitas árvores caídas e pensar na reflorestação, muito mais profunda do que a que estava em marcha há alguns anos, e que procurava mitigar os efeitos do nemátodo-do-pinheiro.
Enquanto isso, a União das Freguesias de Marrazes e Barosa (UFMB) recorda, com o Centro de Interpretação Ambiental de Leiria (CIA), a memória da mata, convocando todos a registar recordações e a deixar sugestões numa exposição patente até 30 de junho, no CIA (no Jardim de Santo Agostinho, em Leiria).
Recuperando um trabalho realizado há alguns anos na Mata dos Marrazes, “diz-me queM eras, sonharemos queM serás” exibe ilustrações de espécies de fauna e flora que habitavam aquele espaço natural, em obras criadas por Mara Mures.
Assim se recordam árvores, aves, arbustos, répteis, anfíbios, herbáceas e mamíferos que compunham aquele habitat. No CIA estão também troncos, ramos, pinhas, sementes, pedras e terra, fragmentos que apelam aos sentidos e à memória.
A inauguração da exposição ocorreu no dia 21 de março, celebrando o Dia Mundial da Árvore e o Dia Internacional da Floresta.
Na sessão, o vereador da Câmara Municipal com os pelouros do Ambiente e Gabinete Técnico Florestal, Luís Lopes, lembrou que, “além da importância ambiental, a Mata dos Marrazes é, acima de tudo, um espaço de desporto, de lazer, de cultura”.
Manter essa diversidade é uma ambição e um objetivo traçado pelas entidades que estão a estudar o futuro da mata. “Sempre houve essa preocupação e queremos que se mantenha”.
Atualmente, disse o vereador, a prioridade “é libertar caminhos e permitir que a mata seja possível de aceder”. Por isso, decorrem trabalhos para libertar acessos e retirar a madeira até ao verão, criando condições para o passo seguinte: “Preparar o solo e garantir condições para fazer ações de replantação”.
Propriedade da UFMB, a Mata dos Marrazes era certificada e a intenção é manter esse estatuto. “Para isso tem de haver gestão florestal, mantendo as espécies que são a imagem de marca da mata mas apostando em mais diversidade de espécies”, antecipou Luís Lopes.
Mas não estão ainda tomadas opções para aqueles 90 hectares, tanto quanto à silvicultura como em relação às diversas áreas que a mancha verde vai albergar. “Queremos reorganizar a mata nos seus usos e na forma como a entendemos”.
Além da UFMB e do município de Leiria, a definição do futuro da Mata dos Marrazes passará também pelos organismos governamentais ligados a esta área. Mas a intenção passa por envolver também a população na reflexão:
“Queremos que seja um processo participativo: chamar as escolas, chamar os clubes, as associações, e dar oportunidade às pessoas que vivem nos Marrazes, e não só, todos os que usufrem da mata, de perceberem o que se pretende, pronunciarem-se sobre os espaços que querem que apareçam lá, os percursos a criar ou manter, etc”.
Para já, pensa-se “em retirar a madeira – porque a época dos fogos está a chegar -, reorganizar reorganizar, proteger e cuidar, e ir controlando o que vai aparecendo – matos, invasoras…”.
Depois, “em novembro ou dezembro”, pretende-se ter tudo pronto para lançar mãos à obra. “Queremos mobilizar a comunidade: apresentar o que será a nova mata e plantar”.
Por definir está a participação do Estado na intervenção. “Estamos em crer que estará envolvido, até porque da parte dos ministérios da Agricultura e do Ambiente já transmitiram a intenção de que estão disponíveis”.
Esse contributo pode acontecer com recursos, “para retirar a madeira, preparação do solo, arranjo dos caminhos, etc”, ou através do financiamento das ações a planear. Um custo que ainda não está calculado. “Estamos a falar de alguns milhares de euros, só para aquele território”.
Enquanto a Mata dos Marrazes não começa a renascer, “diz-me queM eras, sonharemos queM serás” apresenta-se como um convite à memória e à imaginação coletiva para, “em comunidade, sonhar aquilo que ainda poderá voltar a ser”, deseja a organização da exposição.






História
A origem da Mata dos Marrazes remonta à monarquia: em outubro de 1903 publicou-se o decreto de submissão ao regime florestal da “charneca dos Marrazes”, então com 107,5 hectares, e da charneca “do Pinheiro [Pinheiros]”, com 71 hectares. Praticamente incultos, os terrenos foram sendo arborizados. Em 1908 a gestão do espaço verde foi entregue à Junta de Freguesia de Marrazes.