A incerteza quanto ao futuro é uma certeza, nestes tempos conturbados. No campo da inclinação vocacional, todavia, há profissionais que ajudam a navegar os instáveis mares do percurso pessoal.
Não é uma leitura da sina ou das mãos, ao jeito de cartomantes e adivinhos do passado. É uma disciplina da psicologia, artéria que auxilia porque destapa tendências e aptidões que nem sempre conhecemos sobre nós próprios. Não é truque: é uma ajuda valiosa.
Sofia Ferreira, especialista em Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento de Carreira da Em Laços – Equipa de Intervenção Terapêutica, em Leiria, explica que a orientação vocacional contribui para “uma melhor preparação dos jovens para responder aos grandes desafios que se colocam na sua vida adulta e no contexto profissional atual em particular”. Com ela, “os projetos de vida e o contributo que os jovens podem dar à sua comunidade constroem-se de modo mais consciente e pleno”.
É um apoio de relevância acrescida: “mais do que ajudar a escolher uma profissão, a orientação vocacional apoia o desenvolvimento do autoconhecimento, da reflexão sobre interesses e valores, da tomada de decisão consciente e da capacidade de adaptação”, completa Ana Ribeiro, do Serviço de Psicologia e Orientação do Agrupamento de Escolas Dr. Correia Mateus, de Leiria.
Clara Conde, psicóloga, enfatiza igualmente a “capacidade de decisão, o pensamento crítico e a responsabilidade sobre o próprio percurso” da orientação vocacional, ferramenta que contribui para “escolhas mais sólidas, realistas e alinhadas com projetos de vida sustentáveis”.
Ok, ficam as promessas que colocam alta a fasquia – e em boa verdade, a responsabilidade – desta espécie de GPS das vocações. Há, ainda assim, questões incontornáveis: quando se deve começar? Idealmente, “deve iniciar-se de forma precoce e progressiva, desde os primeiros anos de escolaridade, através da exploração de interesses, competências e valores”, entende Ana Ribeiro.
Os erros que nos desviam do caminho
É mais vulgar e conhecida durante o 9.º e 12.º anos, refere Sofia Ferreira, mas “deve ser trabalhada ao longo de todo o percurso académico, com todos os alunos, de forma adaptada às características e necessidades de cada faixa etária”. Há uma sintonia entre as três especialistas. Clara Conde assume que a orientação vocacional “tende a assumir maior relevância em momentos-chave do percurso escolar”, isto é, antes da entrada no 9.º ano, na “transição para o ensino secundário e no planeamento de um projeto de carreira mais definido”. Afinal, estas são alturas de “decisões estruturantes” no sistema educativo português, mas todo o processo deverá ser um “percurso contínuo de desenvolvimento”.
Se a orientação vocacional é uma bússola, convém conhecer as armadilhas no terreno. Sofia Ferreira aponta uma atitude frequente: “atribuir um papel determinante na vida do jovem à escolha que faz no 9.º ano”. A verdade é que “os jovens optam por uma área de estudos, abrangente e com diversas possibilidades futuras, e não por uma profissão”. Outro equívoco habitual é a interferência excessiva dos pais, que por vezes “pressionam os filhos a escolherem determinada profissão, de acordo com os seus valores e interesses”.
Ana Ribeiro acrescenta à lista: “decisões baseadas exclusivamente nas notas, nos amigos e/ou na escola que pretendem frequentar”, o “preconceito em relação ao ensino profissional” e a ideia ilusória de que “existe uma escolha perfeita e definitiva”.
Clara Conde chama a atenção para fragilidades do próprio sistema: “verifica-se ainda uma falta de informação clara e acessível sobre as diferentes áreas de estudo e saídas profissionais” e, em muitos contextos escolares, “a escassez de recursos humanos especializados, nomeadamente psicólogos”. Neste vazio, florescem decisões baseadas em “pressões externas” ou em “ideias associadas ao estatuto e retorno financeiro de determinadas profissões, em detrimento de um verdadeiro processo de autoconhecimento”.
Vocação, empregabilidade e família: que peso para cada prato da balança?
Sofia Ferreira defende que se deve “dar primazia à vocação e basear-se nela para a exploração de diferentes opções”, funcionando a empregabilidade como critério complementar. Ana Ribeiro propõe uma imagem útil: “o ideal é considerar a interseção destes fatores – o ponto onde se cruzam e se complementam – como referência para uma escolha mais equilibrada”.
Clara Conde encerra com uma nota inspiradora: “O que contribui para um trajeto profissional de sucesso é o quanto depositamos de nós mesmos naquilo que fazemos – no nosso diferencial humano”. As expectativas familiares, reconhece, “podem assumir um papel relevante enquanto fonte de apoio”, mas “devem ser enquadradas de forma a não se sobrepor à identidade e aos objetivos do próprio jovem”.
Certo. Não percamos de vista que nos tempos que correm, há profissões que desaparecem e outras que surgem sem aviso. Como pode a orientação vocacional manter-se relevante? As três especialistas convergem: o foco já não está nas profissões em si, mas nas competências que permitem navegar a mudança.
Sofia Ferreira explica que o processo passou a incluir “a promoção de recursos internos para lidar de forma positiva com a mudança e a imprevisibilidade – flexibilidade, autonomia, planeamento e resiliência. Ana Ribeiro confirma: “Hoje, a orientação prepara mais para percursos dinâmicos e não lineares”.
Clara Conde acrescenta que “a orientação vocacional deixa de ser apenas um processo de escolha para passar a ser um processo de preparação”, integrando dimensões como “o bem-estar e a qualidade de vida, enquanto pilares de um percurso profissional sustentável”.
Perdido? Há um ponto de partida
Ouçamos as especialistas. Estes são conselhos que cruzam experiência com conhecimento. Sofia Ferreira propõe um exercício concreto: “Que olhe para si mesmo, reflita e escreva” sobre o que gosta, o que sabe fazer bem, o que valoriza e quais são as suas aspirações. Depois, identifique áreas ou cursos compatíveis e selecione opções por ordem de preferência. Ana Ribeiro deixa conselhos diretos: “Explora várias opções”; “testa experiências práticas: estágios, voluntariado, projetos”; “aceita que o percurso pode mudar”; e “valoriza o teu próprio ritmo – compara-te menos com os outros; cada percurso é único”.
Clara Conde resume com uma frase que podia servir de lema: “O futuro não precisa de estar totalmente claro para poder começar a ser construído”.
Pais e escola: copiloto e base de operações
Retirar os pais ou educadores da equação vocacional é tão inútil como pensar que a escola não tem qualquer papel. Sofia Ferreira lembra que os pais “transmitem valores e atitudes perante o trabalho e expectativas acerca das decisões vocacionais, por vezes muito rígidas”, e sugere formas concretas de envolvimento: diálogo, contacto com o mundo do trabalho, voluntariado e visitas a instituições de ensino.
Ana Ribeiro usa uma metáfora eficaz: os pais devem ser “mais copiloto do que comandante”, reforçando que “a escolha de um curso não define, de forma rígida, uma carreira futura”. Clara Conde nota que o acompanhamento “deve ser feito com equilíbrio, não no sentido de direcionar ou impor escolhas, mas de apoiar o jovem na construção do seu próprio caminho”.
Quanto à escola, Sofia Ferreira destaca o seu papel “ao longo de todo o percurso educativo”, desde o contacto com profissionais até programas de orientação. Ana Ribeiro alerta para um ponto sensível: “A valorização predominante dos percursos científico-humanísticos e o peso excessivo atribuído às classificações podem limitar uma análise mais ajustada ao perfil de cada aluno”. É essencial, adianta, “promover uma cultura educativa que reconheça a legitimidade e o valor de diferentes percursos formativos”. Clara Conde sintetiza: “Quando pais e escola assumem este papel de suporte e orientação, criam as condições necessárias para que o jovem tome decisões mais conscientes, seguras e alinhadas com quem é”.
É tempo de afinar a bússola.