O estudo “Automação e Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho Português: Desafios e Oportunidades” mostra que 22,5% do emprego do distrito de Leiria está em “profissões em ascensão” — combinam elevada exposição transformativa à IA com baixo risco de automação.
No lado oposto, 40% dos trabalhadores da região encontram-se em “profissões em colapso”, ou seja, com grande exposição à substituição tecnológica e escassa capacidade de beneficiar da IA.
O “terreno das máquinas” — onde a tecnologia tanto pode destruir como transformar — representa 14,5% do emprego e o “terreno dos humanos”, caracterizado por baixa exposição a ambos os efeitos, emprega 22,9% da força de trabalho regional.
O distrito de Lisboa “destaca-se largamente pela maior concentração de emprego em profissões em ascensão” e, simultaneamente, pela menor proporção em “profissões em colapso”.
A explicação reside na forte presença de serviços intensivos em conhecimento — tecnologias de informação, consultoria, serviços financeiros, ensino superior e investigação — que dependem de mão de obra qualificada e de tarefas complexas. Estas atividades assentam em “tarefas cognitivas abstratas dificilmente codificáveis”, o que reduz a probabilidade de automação destrutiva e reforça a complementaridade com a IA.
Os distritos do Porto, Coimbra, Vila Real e Bragança acompanham esta tendência, beneficiando também de sectores assentes em conhecimento e de estruturas económicas mais preparadas para absorver tecnologias transformativas.
No lado oposto estão distritos como Braga, Aveiro, Viana do Castelo e Viseu, identificados como “os mais expostos à automação e com pouca exposição aos efeitos transformativos da IA”. Nestes distritos, o peso da manufatura tradicional e das indústrias de baixa tecnologia é determinante.
As tarefas desempenhadas são “muitas vezes repetitivas e rotineiras, com recurso a tecnologias maduras”, o que as torna facilmente codificáveis e, portanto, vulneráveis à substituição por sistemas automatizados.
A conjugação entre baixos custos de adoção tecnológica e forte concorrência internacional aumenta a pressão sobre estes empregos, podendo acelerar a sua destruição.
O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos alerta que, nestas regiões, “a destruição destes trabalhos pode ser muito rápida”, exigindo respostas políticas específicas e urgentes.
Aceleração exige incentivos que ultrapassem os tradicionais subsídios
O estudo “Automação e Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho Português: Desafios e Oportunidades”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), mostra que existe uma “concentração substancial da força de trabalho no terreno dos humanos” (35,7%), caracterizado por menor probabilidade de sofrer impactos destrutivos da digitalização.
Por outro lado, quase um quarto da força de trabalho está nas “profissões em ascensão”, um grupo “posicionado para desfrutar dos efeitos transformativos da IA” e com capacidade para impulsionar inovação e produtividade. A estes acrescem os trabalhadores do “terreno das máquinas”, que, embora expostos à automação, poderão beneficiar de ganhos de produtividade se a adoção tecnológica acelerar.
O relatório sublinha que esta aceleração exige incentivos que ultrapassem os tradicionais subsídios e benefícios fiscais, defendendo “apoios à aquisição de competências de utilização destas tecnologias por parte dos trabalhadores”. O aumento do nível médio de escolaridade reforça a possibilidade de expansão das profissões em ascensão, embora a emigração de jovens qualificados possa dificultar este processo.
Apesar da sua importância, as competências digitais clássicas “não são especialmente essenciais para as profissões em ascensão”, pois as ferramentas de IA tornam-se cada vez mais intuitivas e menos técnicas. Nesse sentido, os programas de formação devem privilegiar competências interpessoais, colaborativas e analíticas, enquanto os currículos escolares devem ser repensados para preparar as próximas gerações para um mercado de trabalho em que a IA estará presente em todas as atividades. Os autores consideram que a articulação entre instituições educativas e indústrias é essencial para garantir que a formação corresponde às necessidades reais do mercado.

No caso das “profissões em colapso”, muito ameaçadas pela automação e com reduzida capacidade de alavancar a IA, o documento destaca que a vulnerabilidade destes trabalhadores é agravada por baixos rendimentos e baixas qualificações, exigindo políticas urgentes de requalificação e proteção social.
Por outro lado, mostra também que muitas pessoas possuem competências de cuidado, assistência e comunicação, que são valorizadas no “terreno dos humanos”, o que poderá facilitar transições profissionais.
Os distritos de Lisboa, Coimbra, Porto e Vila Real apresentam maiores proporções de trabalhadores em “profissões em ascensão”, enquanto distritos como Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Viseu e Leiria têm mais de 40% do emprego exposto a efeitos destrutivos da digitalização. Os distritos do interior, por sua vez, apresentam baixa exposição tanto aos efeitos transformativos como aos destrutivos, concentrando grande parte do emprego no “terreno dos humanos”.
O relatório chama ainda a atenção para impactos diferenciados por idade, escolaridade e género. As diferenças geracionais no nível de educação influenciam a exposição à automação, e algumas profissões são bastante segregadas por género. As mulheres estão “fortemente representadas no terreno das máquinas”, ocupando 59% desses postos de trabalho, o que pode acentuar desigualdades.
No Índice de Economia e Sociedade Digital, Portugal encontra-se numa posição intermédia, com progressos na conectividade e nos serviços públicos digitais, mas com desafios na adoção de tecnologias avançadas pelas empresas e no desenvolvimento de competências digitais. O país precisa, assim, de combinar a “promoção de sectores e profissões em ascensão para acelerar a produtividade e de proteger empregos tradicionais mais expostos às mudanças tecnológicas”.
Os autores do estudo reconhecem o papel crescente das plataformas digitais e da “gig economy”, que estão a ganhar relevância sobretudo nas “profissões em colapso” e no “terreno dos humanos”. Estas plataformas criam oportunidades de emprego em atividades vulneráveis à automação, mas complementadas por trabalho humano, como serviços e distribuição.
Por fim, o estudo defende que os decisores políticos devem “procurar soluções que favoreçam a adoção das tecnologias por parte das empresas, enquanto criam mecanismos de proteção, requalificação e mobilidade profissional dos trabalhadores mais vulneráveis”. A forma como Portugal gerir esta transformação determinará se a IA será motor de crescimento ou fator de exclusão, concluem os autores.
