Em 1947, quatro homens de Mira de Aire procuravam água. Naquele território de pedra onde ela desaparece da superfície, repararam no vapor que saía de uma abertura na rocha e desceram por cordas. Um deles, Ernesto Morais, contaria mais tarde essa história. Procuravam água e encontraram aquilo que viria a revelar-se um dos maiores sistemas de grutas de Portugal.
Gosto desta história porque começa com pessoas e com aquilo que sabiam de um lugar. Recordo-a, agora, porque no passado dia 1 de Outubro assinalou-se o Dia Nacional da Água e iniciou-se um novo ano hidrológico. Este ano, a data chega num contexto inquietante.
Um relatório da Universidade das Nações Unidas afirma que entrámos numa era de “falência hídrica global”. Em muitos lugares, a utilização da água e a degradação dos sistemas que a sustentam ultrapassaram limites que já não permitem regressar às condições anteriores.
Perante uma afirmação desta dimensão, a água transforma-se facilmente em números, mapas e projecções. São indispensáveis. Mas importa regressar aos territórios e perguntar: quem sabe a água?
Em Mira-Minde, há quem conheça os pontos onde ela reaparece quando o polje enche. Manuel Matos, morador em Mira de Aire, contou ao Região de Leiria, em 2019, a rapidez invulgar com que vira a água subir. Na mesma reportagem, Carlos Alberto Jorge, Presidente do conselho de administração das Grutas de Mira de Aire, explicava o fenómeno através das nascentes, da precipitação e do sistema subterrâneo. Olhavam para a mesma água. Sabiam coisas diferentes sobre ela.
A pergunta acompanha-nos pela região. No Oeste, onde os pomares marcam a paisagem, agricultores conhecem o solo, a chuva, os tempos da rega e as necessidades das árvores. Rios e ribeiras atravessam esses mesmos territórios e as suas margens são, por vezes, ocupadas pela produção. Biólogos e hidrólogos explicam-nos a importância da vegetação ripícola na protecção do solo, retenção de sedimentos e nutrientes e preservação dos ecossistemas. Diferentes conhecimentos encontram-se no mesmo território.
Em Alcobaça, esta relação vem de longe. Durante séculos, pessoas aprenderam a conduzir a água do Alcoa e do Baça, construindo levadas, açudes, moinhos e azenhas. Mudaram as técnicas e as formas de produzir, mas a água continua a exigir conhecimento. Carlos Malhó, agricultor e presidente da Associação de Beneficiários da Cela, fala da água medida e distribuída aos agricultores, das perdas reduzidas pela modernização da rede e da preocupação com as margens e os diques do Alcoa.
Quem trabalha uma terra reconhece sinais que outros não veem. Quem estuda um aquífero compreende percursos subterrâneos invisíveis à superfície. Quem vive junto de um rio conhece as suas mudanças. Nenhum destes saberes é suficiente por si só, nem precisam de ser equivalentes para poderem dialogar.
É esta aproximação entre formas de conhecer que A Time of Great Consequence: A Manifesto for Bridging Knowledge and Action, da UNESCO-MOST BRIDGES, reclama: problemas complexos exigem aproximar conhecimento científico, técnico e profissional da experiência vivida e dos conhecimentos construídos nos territórios.
É também por aqui que passa o património cultural imaterial: pelas pessoas que sabem onde procurar a água, quando regar, como conduzi-la, que sinais observar; pelas histórias de cheias e secas; pelo conhecimento aprendido e transmitido.
Alguns destes saberes permanecem, outros transformaram-se e outros poderão estar a desaparecer sem percebermos que os estamos a perder.