
Margarida Ferraz
Psicóloga Clínica e da Saúde, especialista em Adições Químicas
e Comportamentais
Com a chegada do outono, os dias encurtam e a rotina volta a ganhar intensidade. Na prática clínica, é frequente surgirem nesta altura queixas de cansaço persistente, menor motivação e maior irritabilidade.
Há uma explicação para isto. A redução da luz natural interfere com os ritmos circadianos, que regulam o sono e a energia, e pode alterar a produção de melatonina e de serotonina. Daí resultam, em muitas pessoas, mais sonolência, menos energia, maior apetite por hidratos de carbono e um humor mais em baixo. Na maioria dos casos, trata-se de uma resposta adaptativa e transitória à mudança de estação.
Importa, contudo, distinguir esta adaptação de um quadro clínico. Quando o humor deprimido, a perda de interesse, o afastamento social e as alterações do sono se prolongam por semanas, se repetem ano após ano e comprometem o funcionamento diário, pode estar presente uma perturbação depressiva com padrão sazonal, que deve ser avaliada por um profissional de saúde mental.
A investigação científica aponta estratégias com eficácia demonstrada. A exposição à luz natural, sobretudo de manhã, ajuda a regular o relógio biológico, e a regularidade nos horários de sono reforça essa estabilidade. A ativação comportamental, que consiste em manter atividades com significado e prazer mesmo quando a vontade é pouca, contraria o ciclo de isolamento e desânimo. O contacto social funciona, por sua vez, como fator de proteção.
Nos casos clinicamente significativos, a psicoterapia, em particular a terapia cognitivo-comportamental, apresenta resultados consistentes. Ajuda a pessoa a identificar e a modificar os padrões de pensamento e de comportamento que mantêm o mal-estar, promovendo a recuperação e prevenindo recaídas em anos seguintes.
Sentir mais o peso desta estação não é sinal de fraqueza. Reconhecer os sinais e procurar ajuda quando o mal-estar persiste é, também, uma forma de cuidar da saúde psicológica.