Quais são as principais mudanças, a nível de estatutos, com a criação da Associação Académica do Instituto Politécnico de Leiria?
A Associação Académica veio mudar, essencialmente, a representação estudantil, porque as antigas associações de estudantes só representavam uma escola. Já sabíamos que a passagem para universidade estava aí à porta e com a criação das novas escolas de TeSP (Cursos Técnicos Superiores Profissionais), as associações de estudantes não poderiam representar essas escolas. A Associação Académica vem resolver esse problema. Além disso, permite uma visão a longo prazo, pois temos vários órgãos consultivos, articulados com presidentes de Câmara, diretores de escola, que permitem alinhar a nossa visão com a deles e a longo prazo garantir mais estabilidade. As associações preparavam-se para aquele mandato, mas a longo prazo era muito incerto. Tendo um plano estratégico já escrito, conseguimos agora caminhar para um objetivo e ter estabilidade a longo prazo, embora o mandato continue a ser de um ano.
Acreditam que vão conseguir representar todos os estudantes?
Sim. Era a principal preocupação que tínhamos para este mandato e estamos quase a conseguir atingi-la. Neste momento, conseguimos fechar núcleos para Pombal, Torres Vedras e o núcleo de Termalismo. Estamos muito perto de ter representação em todo o lado.
Um pólo não é igual a uma escola, por isso mesmo é importante ouvir os estudantes dos pólos, perceber quais são as suas dificuldades e apresentar soluções.
Que peso tem a mudança para os estudantes? Há receio de se perder a identidade mais prática e próxima do ensino politécnico?
Não diria que temos receio em perder a identidade politécnica, porque vamos continuar com essa vertente. Estamos encaminhados para ter ensino universitário e ensino politécnico e achamos que será muito benéfico para a nossa região a instituição ter outro tipo de cursos que só uma universidade pode trazer. Vamos continuar com cursos mais ligados ao tecido empresarial, esse ensino não se perde.
O único receio que existe é que o Politécnico de Leiria já tinha um nome considerável. Mas ainda assim acredito que este é o caminho certo e que a mudança para universidade trará mais vantagens do que desvantagens.
Quais são as principais preocupações dos alunos atualmente?
No que toca à universidade não há muitas. Inicialmente, não vai mudar muita coisa na prática, mas futuramente sim. Os planos de estudo terão de ser todos revistos, por exemplo. Por agora, há ainda questões relacionadas com a tempestade que se mantêm. Há alunos que não conseguiram fazer as frequências por causa da tempestade. As situações estão a ser tratadas caso a caso e as direções das escolas estão a abrir épocas especiais para esses alunos.
Há já um conjunto de medidas iniciais que pretendam implementar enquanto associação?
Para já o nosso foco está na transição para universidade, nas queixas atuais dos alunos e sugestões que chegam por parte dos núcleos de estudantes. Queremos assegurar uma transição para universidade o mais suave possível. Vamos articular diretamente com a instituição para esclarecer passo a passo o que vai acontecer. Podem vir a mudar avaliações, a disposição dos cursos.
Reforçar o apoio aos estudantes deslocados e aos trabalhadores-estudantes está nas prioridades?
A nossa prioridade também passa por aí. Mas ainda estamos numa fase de estabelecer as bases e só depois identificar os problemas principais e ver onde podemos atacar primeiro. No caso dos trabalhadores-estudantes, o principal problema agora é a inconveniência em termos de horários. O início do ano foi caótico, por causa dos estragos deixados pela tempestade.
O custo da habitação é um problema que afeta toda a população. No caso dos estudantes, a existência de um mercado sem regras é bastante preocupante. Que ações é que a associação pretende levar a cabo para colmatar esta realidade?
Temos estado a trabalhar com os serviços de ação social, porque com a tempestade sofremos danos nas residências e ficámos com camas a menos. O que tem estado a ser feito é dar o complemento de alojamento aos estudantes para poderem procurar alojamento fora das residências. Enquanto associação, ainda não temos um plano delineado, porque ainda não sabemos que mudanças serão feitas, em concreto, nas regras das bolsas de estudo e do complemento de alojamento. Quando tivermos essa informação, podemos delinear um plano.
Qual a posição da associação em relação ao pagamento de propinas e o valor das mesmas?
Temos votado sempre contra o aumento e achamos que como está agora já é uma vitória. O ideal seria não se pagarem propinas, mas temos consciência de que o modelo atual não o permite, portanto, a nossa luta será sempre centrada em evitar que o valor aumente.
Achamos que será muito benéfico para a nossa região a instituição ter outro tipo de cursos que só uma universidade pode trazer
André Pereira, presidente da Associação Académica do Instituto Politécnico de Leiria
A oferta de transportes públicos nas várias cidades em que o politécnico está presente é suficiente?
Não. Em Leiria, é muito adequado, cada vez mais. Mas nas Caldas da Rainha, principalmente, os transportes não chegam a todo o lado. Muitos alunos vão a pé para a escola, esteja a fazer sol ou a chover. É preciso adequar a oferta às necessidades.
Como é que está a funcionar a articulação com a Câmara de Leiria e outras entidades fora do politécnico?
Desde a tempestade que a comunicação com a Câmara de Leiria tem sido complicada. Ainda não conseguimos propriamente ter uma conversa sobre o que queremos para o futuro do ensino superior na cidade de Leiria. Esperemos conseguir fazê-lo o mais rápido possível. Nas restantes cidades, as câmaras mostraram-se muito acessíveis. Essa articulação está a ser feita pouco a pouco, à medida que vamos delineando o plano para cada região.
Que papel é que a cidade pode ter na melhoria da vida estudantil?
Ouvir os estudantes, articular connosco. Ouvir primeiro para depois delinearmos um plano para poder integrar os estudantes que cá estão e, provavelmente, vão ficar a trabalhar e residir em Leiria durante muitos anos. Ainda há muito trabalho a fazer para reforçar esta relação. Os estudantes são muito bem acolhidos, mas há algumas mudanças que podiam ser feitas. A cidade já percebeu que os estudantes fazem parte dela, mas mantém-se a lacuna da dificuldade na comunicação.
Que tipo de intervenção é que a comunidade pode esperar da Associação Académica de Leiria? Haverá uma participação em manifestações estudantis nacionais?
Subscrevemos a luta dos estudantes. Mas agora estamos ocupados em arrumar a casa e queremos pôr tudo a funcionar corretamente internamente. A associação vai também tentar manter-se o mais neutra possível em relação à política, porque deve ser apartidária. Futuramente, gostávamos de alargar a nossa ação à comunidade, de forma a facilitar também o nosso plano de atividades. Estamos já a fazer parcerias com estabelecimentos da cidade e grupos de corrida. Nas restantes cidades, também estão a ser estabelecidas parcerias.
Que relação é que querem criar, em concreto?
Queremos ajudar o máximo possível o comércio local, investir no voluntariado. Pretendemos criar uma ligação entre os estudantes e a cidade, para que depois, quando saírem do ensino superior, continuem a fazer parte das dinâmicas da cidade, tal como já acontece em Coimbra. Queremos tornar a cidade mais acolhedora para os estudantes.