Antes de mais, concordemos com o básico: conseguir imaginar a secção transversal de um prisma oblíquo não é tarefa fácil, mas é um dos desafios de quem aprende Geometria Descritiva.
Durante milénios, a pressão para sobreviver formatou-nos para detetar predadores, reconhecer quem é semelhante e não oferece perigo e assegurar a reprodução da espécie. O nosso cérebro não é um produto “feito”, por exemplo, para representar sólidos em dupla projeção ortogonal. E isso torna ainda mais notável o que José Oliveira construiu na sua sala de aula, em Leiria.
Aos 62 anos, professor de Geometria Descritiva na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, José Oliveira é um docente verdadeiramente entusiasmado com a função pedagógica do professor. E não são todos? Talvez. José Oliveira é-o reconhecidamente: foi eleito professor do ano de 2025, no âmbito do Global Teacher Prize.
Curiosamente, o seu plano inicial não passava pelo ensino, ainda que várias pistas do seu percurso o parecessem indicar. Vejamos um exemplo que nos conta: era estudante universitário, num curso de Design Industrial, e uma colega de turma veio pedir-lhe ajuda com um exercício de perspetiva cónica.
Ele começou a explicar, com paciência e detalhe. Mas rapidamente percebeu que o que ela estava a ver não era a explicação — era o trabalho a ser feito.
Continuou. Fez o trabalho todo, passo a passo, enquanto os colegas se iam juntando em redor, curiosos. No final, perguntou-lhe: “Então percebeste?” Ela respondeu que sim. “Já sabes fazer sozinha?” Também disse que sim. E então ele pegou no trabalho e amachucou-o. “Chegámos ao final do trabalho e ela nunca mais me falou”, recorda, com um sorriso.
“Mas eu já tinha incutido na minha cabeça que podia ajudar os outros a compreenderem por si próprios. E é isso que é ser professor. Um professor é isso.”
Aliás, a perspetiva de ajudar os colegas acabou por lhe ser prejudicial. José Oliveira puxa novamente das memórias. Na universidade, passava as aulas inteiras a ajudar os colegas com os exercícios e ia para casa tratar dos seus próprios trabalhos. Até que um professor lhe deu uma nota baixa — um dez ou um onze, recorda — e lhe explicou a razão: “Tu não fazes nada na aula”. A nota acabou por subir mas o impulso de ensinar ficou. “Retroativamente, olhando para trás, eu percebo que estava destinado”, admite. Não foi esse o seu plano A, todavia.
Finda a licenciatura, tinha a perspetiva de um projeto profissional traçado: ir trabalhar com um arquiteto no Algarve, em Tavira. Mas, quando regressou das férias, o projeto tinha desaparecido, uma vez que o arquiteto e o sócio se tinham zangado. O ensino foi a opção. Já lá vão quase quatro décadas. Passou por muitas escolas, muitas disciplinas — oficina de artes, desenho, design, e agora Geometria Descritiva.
Fez uma incursão de um ano e meio por Inglaterra, onde acabou também por dar aulas durante seis meses, antes de concluir que “se é para ser professor ali, prefiro Portugal, Portugal permite-me outras coisas”. Está na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo desde 2019, onde é também responsável pelo Laboratório de Educação Digital.
Entretanto, a sua preocupação parece manter-se inalterada: que os problemas e desafios da aprendizagem sejam ultrapassados. Foi assim com os colegas de universidade e é assim com os alunos. E foram eles que o candidataram e lhe valeram a distinção entre pares.
O prémio, de 30 mil euros, foi e será maioritariamente canalizado para melhorar as aprendizagens. José Oliveira aposta em materiais que entende serem essenciais ao sucesso e que, confessa, deviam existir em todas as escolas. Entre tablets e outras ferramentas que facilitam o esforço — que, como vimos, desafia a natureza primordial do nosso cérebro — de aprender com a projeção abstrata do nosso mundo físico, está convencido de que este é um investimento vencedor. “O melhor professor é aquele cujo desejo é que os seus alunos sejam melhores do que ele”, explica.
Os tablets em que investe são ferramentas escolhidas para permitir que cada aluno progrida ao seu próprio ritmo, com exercícios que avançam passo a passo. “Aquela ferramenta faz com que eles, por um lado, estejam um bocadinho mais empenhados, porque aquele objeto é como o telemóvel, eles gostam do objeto. Mas, fundamentalmente, porque permite que evoluam a velocidades diferentes e cada um deles tem por onde evoluir”.
Há um momento em que, enquanto professor, consegue observar alunos que exibem um grau elevado de autonomia. Aí, sente-se realizado. “Estive uma aula praticamente inteira encostado à porta, a olhar para os meus alunos. Eles estavam-se a preparar para o exame nacional, a ajudar-se uns aos outros, a circular na aula, a ir buscar ajuda, seja no manual, seja na internet, seja junto do colega do lado. Sem brincadeiras, sem disparates. Acho que um professor se realiza assim”.

A insistência na autonomia é acompanhada pelo cultivo da responsabilidade pelo bem comum. “Aprender a ser responsável por aquilo que é meu, a vida vai ensinar-me. O importante é sermos responsáveis pelos bens comuns”. Há um episódio que conta com evidente satisfação: uma aluna que, numa aula, partiu inadvertidamente um material partilhado. “A pessoa ficou muito preocupada por partir uma coisa que é comum. E isto é um valor fundamental”.
Outro valor que lhe merece esforço acrescido é o da diversidade, consequência do perfil individual que abre caminhos de formação distintos. José Oliveira advoga o modelo do Core-Centric Curriculum, que defende um currículo universal mínimo — valores, conhecimentos de base, aquilo que toda a gente num país deve partilhar — como sustentáculo de uma diversificação ampla.
“Eu acho que há um conhecimento comum de base que é obrigatório, que deve ser transversal. Mas isso é de base. E convém que não sejamos demasiado exigentes aí, porque senão vai ocupar demasiado espaço e conduz a insucesso. Porque depois não tenho espaço para uma coisa que é fundamental: cada um poder desenvolver-se naquilo em que é bom”.
Com a tecnologia a atingir resultados ímpares, José Oliveira acredita que haverá sempre um espaço reservado: o que a Inteligência Artificial não substitui é a vontade moral. “Dentro em breve, a maioria das coisas que nós necessitamos de fazer vão passar a ser feitas pela Inteligência Artificial. O que nós temos é a vontade, e essa vontade é fundamentalmente moral”. E, portanto, a escola tem de investir precisamente naquilo que as máquinas não fazem: “Levar as pessoas a desenvolverem-se intelectualmente. Mas, para tirar o maior potencial possível, é preciso que as pessoas gostem”.
José Oliveira critica a centralização do sistema educativo português, defendendo que as decisões devem ser tomadas mais perto das escolas e das salas de aula. Aponta o seu próprio exemplo com o prémio Global Teacher Prize, cujo valor investiu diretamente nas necessidades concretas dos seus alunos, em contraste com a distribuição uniforme de equipamentos financiados pela “bazuca” europeia, muitas vezes desajustados da realidade de cada escola e sem utilidade prática.
Para o professor, a solução passa por dar maior autonomia às escolas, acompanhada por supervisão, permitindo que docentes escolham os recursos mais adequados aos seus projetos pedagógicos.
Quanto ao que define um bom aluno, sublinha o papel essencial do trabalho consistente, não como repetição mecânica, mas como forma de consolidar a compreensão através da prática contínua. E valoriza a autonomia intelectual: o aluno deve questionar, procurar informação e formar o seu próprio juízo, em vez de aceitar passivamente o que lhe é transmitido. Afinal, o que distingue este professor de Leiria é a convicção de que a escola existe para descobrir o que cada um tem de melhor.
Quando se é portador de um cérebro moldado pela dura e antiga vida da savana, projetar sólidos no espaço é tarefa tão exigente quanto preciosa. Tal como o é formar indivíduos capazes de pensar de forma crítica.