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Erasmus: Quando o mundo está no menu.“Foi inesquecível”

Quatro estudantes da região experimentaram estudar noutro país. São relatos bem diferentes mas que convergem na confissão de que viveram dias irrepetíveis, ainda que desafiantes

Macau, Gdansk, Utrecht e Gent. Estes quatro locais espalhados pelo globo são marcos na vida de outros tantos estudantes da região. Foi lá que experimentaram estudar fora do país e da região e garantem que valeu totalmente a pena. Para Rodrigo, Matilde, Ana e Laura, esta foi uma das mais valiosas lições que aprenderam enquanto estudantes. Vamos perceber porquê.

“Foi uma experiência incrível, apesar da adaptação não ter sido muito fácil: voltava a repetir tudo”, resume Matilde Pedrosa, 22 anos, natural do Coimbrão, Leiria. Era aluna de Química, na Universidade de Aveiro – disciplina que agora aprofunda em mestrado no Porto – quando surgiu a oportunidade de rumar a outro país, outra cidade, a uma cultura diferente.

Descobriu a vantagem de encontrar a diferença e de “aprender uma realidade completamente diferente, conhecer novas pessoas, conhecer as rotinas delas, os costumes”, conta na primeira pessoa. E o que é que isso lhe provocou? “Tornei-me uma pessoa muito mais independente, a falar com as pessoas e a resolver os meus problemas, porque se alguma coisa acontecesse, estava completamente sozinha, sem conhecer ninguém, nem perceber a língua”. A conclusão é simples: “se eu conseguir sobreviver quatro meses longe da minha casa, sem o conforto da família e de tudo o que eu conhecia, agora qualquer coisa que venha sinto que não vai ser tão difícil de lidar”.

A experiência da superação é clara. Rodrigo Costa, 27 anos, de Bidoeira de Cima, Leiria, esteve em Macau, em intercâmbio. A sua chegada ao Oriente, no âmbito da licenciatura em Administração Pública no Politécnico de Leiria, não foi totalmente tranquila. Antes pelo contrário. Foi em 2020, numa altura em que a pandemia começou, gradualmente, a isolar cidades, países e, posteriormente, praticamente todo o globo. As ondas de choque deslocaram-se de Oriente para Ocidente, e o fecho atingiu primeiro a zona onde estava. Chegou ao antigo território português e que hoje integra a China, no segundo dia de 2020.

Rodrigo Costa em Macau

“O plano era ficar até junho”, recorda. Mas começaram a registar-se casos de doença. Ainda ficou duas semanas sem aulas mas a incerteza ia aumentando. “Dia 12 de fevereiro fui repatriado” em conjunto com outros portugueses. A pandemia de Covid-19 estava a alastrar-se e a sua experiência terminou ali.

Embora curta, foi uma experiência intensa. “Isto parece quase um clichê, mas é mesmo uma experiência super enriquecedora”, aponta. E porquê? “O que para mim foi mais enriquecedor foi sentir-me um outsider”. Para Rodrigo Costa – que inicialmente planeou uma experiência em Florença (Itália) que acabou por se gorar – “ir para um país completamente diferente, onde a cultura é muito diferente” vale ouro.

Afinal, “apesar de ainda haver alguns vestígios de portugalidade, não se fala português efetivamente”. Surge a “necessidade de me adaptar a uma realidade nova, a uma cidade nova, muito diferente de Lisboa ou Leiria, apesar delas já serem muito diferentes entre si”. Em suma, “Macau é uma região muito diferente”.

Ana Leonor Amado, tem 20 anos, é da Batalha e está a terminar a licenciatura em Economia na Nova SBE, em Carcavelos. A experiência de Erasmus ainda está fresca, tendo terminado em janeiro passado, cinco meses depois de ter arrancado, no final do último verão. Esteve em Utrecht, nos Países Baixos. “Foi inesquecível”. Eis um resumo dos efeitos secundários que Ana Leonor não duvida terem sido benéficos: “Mudar-me para os Países Baixos fez-me crescer, tirando-me da minha zona de conforto, desde a língua à utilização do principal meio de transporte, a bicicleta. Simultaneamente, esses desafios e a curiosidade por conhecer mais a Europa que me rodeava, abriram os meus horizontes”.

Do açúcar às ruas mágicas

Há peripécias, dificuldades e imensos episódios que constroem as memórias destes dias e meses, fabricando um puzzle mental narrativo. E depois há o balanço pessoal. “Sinto que volto desta experiência com mais abertura a sítios e pessoas novas e com menos medo de arriscar”, confessa. Das pequenas às grandes barreiras. Eis um exemplo: “antes de ir tive muito receio de não me adaptar à circulação de bicicleta e lá foi algo que se tornou parte do dia a dia, independentemente do estado do tempo. Como costumam dizer os neerlandeses: “Não somos feitos de açúcar”.

Laura Marques, na Bélgica

Dois anos mais velha que Ana Leonor Amado, Laura Marques é igualmente da Batalha. E também esteve fora do país praticamente na mesma altura. Erasmus, no seu caso, rimou com Gent, na Bélgica.

Atualmente estudante de enfermagem em Lisboa, no quarto e último ano da licenciatura, experimentou o ensino e a vivência belga de setembro a dezembro do ano passado. Fez questão de aproveitar ao máximo. “Tive sempre a consciência de que estava a viver algo único e de curta duração, o que me fez valorizar ainda mais cada momento, tornando cada experiência mais intensa e genuína. Procurei não deixar passar oportunidades e criei memórias que sei que vou guardar durante muito tempo”. A avaliação que faz deste mergulho numa vida noutro ponto da Europa resume-a, sem surpresa: “Foi, sem dúvida, uma experiência muito positiva, marcada pela novidade constante do dia a dia”.

A novidade de “conhecer pessoas novas” e “ouvir diariamente uma língua desconhecida”, também. Curiosamente, a entrada da bicicleta no quotidiano foi experiência partilhada pelas duas jovens batalhenses: “adaptar-me ao uso da bicicleta como principal meio de transporte, até ao contacto com novas rotinas e formas de viver, tudo contribuía para um sentimento de descoberta contínua”.

Para além da vivência académica e social, há uma existência urbana nova que também transparece tatuada no discurso dos jovens imersos no exterior. Matilde Pedrosa, que, como os restantes, enfrentou desafios da língua estranha ou dos costumes menos partilhados, encontrou equilíbrio na cidade. No seu caso, Gdansk – “muito tranquila, mas cheia de vida, porque os edifícios são todos coloridos, as avenidas são… mágicas, muito bonitas e transmitem-nos tranquilidade”.

Amizades sem fronteiras, desafios sem manual

Se a descoberta das cidades e dos seus ritmos é uma das primeiras camadas desta experiência, a construção de laços humanos com pessoas de geografias e culturas distantes é, talvez, a mais duradoura. Ana Leonor Amado encontrou em Utrecht um microcosmo do mundo. “Entre partilhas sobre desenhos animados às dúvidas existenciais em relação ao futuro do mundo, carreira e ambições pessoais, consegui perceber aspetos em comum e incorporar diferentes perspetivas com pessoas que vêm desde o sul da Europa ao hemisfério Sul, da Austrália”, conta.

Ana Leonor em Utrecht

As amizades internacionais e as viagens facilitadas pela localização central de Utrecht foram, na sua avaliação, os pontos mais altos do Erasmus. Mas houve mais: “Viver nos Países Baixos permitiu-me observar outros modos de vida, desde o equilíbrio entre lazer e trabalho, experienciar um ensino universitário mais autónomo e, em Utrecht, a vida de uma cidade estudantil marcada pela apreciação por música”.

Laura Marques subscreve a importância do encontro com o outro. “Fazer amigos de vários países permitiu-me conhecer outras realidades e olhar para a minha própria cultura de forma mais consciente”, reconhece. A estudante de enfermagem destaca ainda o exercício de autonomia que representou viver sozinha num país diferente. Já Rodrigo Costa, que do outro lado do mundo em Macau observou uma cidade “super movimentada, com muita vida a todas as horas, muita gente de todos os países”, encontrou nesse confronto permanente com a diferença uma lição que o acompanha até hoje: “Conseguimos perceber efetivamente e comprovar que nós, no fundo, somos todos iguais – as pessoas acordam de manhã quase todas pela mesma razão”.

Nem tudo foram flores

Mas há o reverso. Nenhum dos quatro esconde que o processo tem custos. Ana Leonor deparou-se com a dura realidade do mercado de arrendamento neerlandês: a oferta insuficiente da faculdade obrigou-a a ficar longe da universidade, dificultando a adaptação inicial. Além disso, o sistema académico de Utrecht, mais focado no estudo autónomo em casa, tornou mais difícil o contacto com estudantes locais.

Laura sentiu o peso da distância. “Estar longe da família e dos amigos foi, por vezes, difícil, e percebi que a vida continuava a acontecer sem mim”, admite. O regresso trouxe outro desafio inesperado: “Às vezes parecia que tudo tinha sido apenas um sonho, porque, de repente, tudo estava igual à rotina de antes do Erasmus”.

Para Rodrigo, o regresso abrupto e forçado pela pandemia deixou marcas. “O facto de ter voltado abruptamente mudou-me ali um bocado os planos. A nível psicológico, aquilo afetou-me um bocadinho”, confessa. Quando regressou a Portugal, o semestre estava a começar e ele não se sentia preparado para “mudar o chip”. A nível académico, ficaram cadeiras por fazer e um ano a mais de licenciatura. Ainda assim, o balanço é inequívoco: “Se eu soubesse os moldes a que iria estar sujeito, voltaria a ter a mesma experiência”.

Matilde Pedrosa esteve a estudar em Gdansk

Matilde, por seu lado, enfrentou a barreira linguística de forma particularmente intensa. Em Gdansk, poucos falavam inglês – incluindo professores. “Tinha de estar sempre com o tradutor na mão para falar em polaco”, recorda. Chegou a ter um professor que comunicava com ela em espanhol, “porque percebia melhor espanhol do que inglês”. Apesar disso, o ensino acabou por ser acessível: os conteúdos já lhe eram familiares da licenciatura em Aveiro e a avaliação, baseada sobretudo em trabalhos e apresentações, não constituiu um obstáculo.

O que fica para o futuro

O denominador comum entre os quatro é a convicção de que a experiência se prolongará muito para lá do período vivido no estrangeiro. Ana Leonor acredita que a rede de amizades construída a desafiará “sempre a crescer e a conhecer mais” e tira uma conclusão que lhe serve de bússola: “Esteja onde estiver, saberei que com as pessoas certas e com curiosidade sobre atividades e lugares, um sítio pode-se tornar casa”. Acrescenta ainda que o conhecimento adquirido sobre história europeia a fez perceber “a importância da tolerância e da união na construção de um futuro melhor”.

Laura sente-se “mais autónoma, confiante e capaz” de se adaptar a diferentes contextos. “Aprendi que consigo enfrentar o desconhecido e organizar-me em ambientes novos. Acima de tudo, percebi que até as situações mais desafiantes trazem crescimento”, sublinha.

Rodrigo, cuja experiência em Macau teve uma dimensão profissional inesperada, reconhece que a imersão na cultura chinesa lhe deu ferramentas concretas para o trabalho que desempenha hoje como gestor de produto, lidando diariamente com parceiros chineses. “Aquilo que são os negócios em Portugal não são os negócios chineses. Muitas vezes, uma abordagem chinesa não é no mesmo tom que uma abordagem portuguesa, mas podem querer significar o mesmo”, explica. Para além disso, trouxe consigo “uma capacidade de adaptabilidade diferente e de empatia” que não teria desenvolvido sem ter estado do outro lado do mundo.

Quanto a Matilde, a mensagem que deixa é um apelo direto a quem pondera dar o passo: “Aconselho a arriscar. Eu ia com esse medo de não conseguir, de vir logo embora mal surgisse a primeira dificuldade, mas é ser persistente e pensar: isto vai ajudar-me, eu vou sair daqui uma pessoa melhor”. Uma pausa, e remata: “Temos que fazer sacrifícios para que depois consigamos ser melhores”.

Rodrigo, Matilde, Ana e Laura atreveram-se a sair e ficaram maiores. E eis que o mundo fica mais pequeno.