O estudo mais recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sobre automação e Inteligência Artificial (IA) mostra que apenas 22,5% do emprego em Portugal se encontra em profissões com potencial para beneficiar dos “efeitos transformativos” (que fazem mudar) da IA, enquanto 28,9% dos trabalhadores estão em funções muito expostas à automação e, por isso, em risco de substituição.
Entre estes dois polos, 35,7% do emprego situa-se no chamado “terreno dos humanos”, com baixa exposição tanto à automação como à IA, e 12,9% encontra-se no “terreno das máquinas”, onde a tecnologia já domina grande parte das tarefas, explica o documento “Automação e Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho Português: Desafios e Oportunidades”, concluindo que “a larga maioria do emprego não está posicionada para desfrutar dos efeitos positivos que podem advir da complementaridade da IA com o trabalho humano”.
No caso das “profissões em ascensão”, aquelas que têm uma elevada exposição aos efeitos positivos da IA e baixa penetração da automação, podem beneficiar de ganhos de produtividade sem enfrentar riscos significativos de substituição, constituindo o grupo “mais promissor para o futuro, de elevado valor acrescentado e essencial para alavancar o crescimento económico”.


Estas profissões — representam 22,5% do emprego — ocupam a maior percentagem de trabalhadores muito qualificados, com ensino superior e que apresentam os rendimentos médios mais elevados. Este facto reflete “o alto valor atribuído às competências avançadas que se antecipam como complementares com a IA”, refere o estudo da autoria de Pablo Casas, Hugo Castro Silva, António Sérgio Ribeiro e do coordenador Rui Baptista.
Entre os exemplos de “profissões em ascensão” contam-se os matemáticos, atuários (avaliação e gestão de risco financeiro), estatísticos (análise de dados), demógrafos, diretores de serviços de tecnologias da informação e especialistas em áreas científicas (como físicos e químicos). Apesar da sua relevância estratégica, estas profissões são relativamente pequenas em dimensão, ou seja, o país tem ainda uma base reduzida de pessoas preparadas para tirar partido das oportunidades tecnológicas emergentes.
No extremo oposto estão as “profissões em colapso” (28,9%), aquelas que constituem o grupo mais vulnerável aos efeitos destrutivos da automação, e caracterizam-se por incluírem tarefas rotineiras, físicas ou repetitivas, desempenhadas sobretudo por trabalhadores com baixos níveis de escolaridade e qualificações.
Segundo o estudo, publicado no ano passado, trata-se de funções com “elevado risco de substituição pelas tecnologias de digitalização”, contando-se entre elas os “trabalhadores relacionados com vendas”, incluindo em “contact centers” ou ao domicílio, “outras profissões elementares”, como estafetas e distribuidores, e “empregados de mesa e bar”. Só estas três categorias representam mais de 11% do emprego total, o que mostra “a dimensão do problema”.
Os investigadores alertam para o “elevado número de trabalhadores em risco de obsolescência”, sublinhando que muitos destes empregos já se encontram sob pressão tecnológica. Além disso, algumas das maiores profissões do país, embora ainda não classificadas como estando em colapso, encontram-se muito próximas, como os trabalhadores de limpeza e qualificados da construção, ambos com “grau de exposição à automação bastante elevado”.
Entre as “profissões em ascensão” e as “profissões em colapso”, os autores do documento colocam o “terreno dos humanos”, que abrange 35,7% do emprego e inclui atividades com baixa exposição à automação e à IA. São funções muito dependentes de capacidades interpessoais, prestação de cuidados, comunicação e contacto direto. O estudo considera que, nesta área, “uma elevada proporção dos trabalhos está, em princípio, protegida de uma potencial destruição com origem na automação”.
No entanto, esta proteção não é absoluta. O documento alerta que “são poucas as profissões no ‘terreno dos humanos’ que têm níveis baixos de exposição à automação”, o que significa que futuras evoluções tecnológicas podem alterar o equilíbrio atual. Embora estas profissões partilhem características com as “profissões em colapso”, distinguem-se por exigirem mais competências de comunicação e prestação de cuidados, o que poderá facilitar a transição de trabalhadores hoje em funções mais vulneráveis.

O quarto pilar analisado é o “terreno das máquinas”, que representa 12,9% e combina elevadas exposições à automação e à IA, e funções numa transição acelerada. Entre as profissões mais numerosas estão os empregados de escritório em geral, trabalhadores de aprovisionamento, armazém e apoio à produção, e pessoal de receção e informação a clientes.
O estudo da FFMS constata que muitos destes trabalhadores ainda desempenham tarefas “rotineiras que, com as capacidades atuais da tecnologia, são já facilmente automatizadas”. Assim, o espaço para trabalho humano neste sector poderá diminuir, embora a IA possa também permitir que as pessoas se concentrem em tarefas de maior valor acrescentado.
Nas “profissões em ascensão”, as competências mais relevantes são das áreas de comunicação, colaboração e criatividade, com importância entre 32,8% e 36,5%, seguindo-se as de informação e gestão. O estudo conclui que, apesar da importância das competências digitais, “não deve preterir-se a comunicação, criatividade e informação, mais determinantes neste terreno”.
Nas “profissões em colapso”, predominam competências de prestação de assistência e cuidados (20,1%) e competências físicas de manuseamento e movimento (19,8%), ou seja, aquelas mais expostas à automação. O documento conclui que “as competências que correm maior risco de desaparecimento a breve prazo estão associadas ao trabalho físico e manual, ou ao trabalho com máquinas”.
