É uma pergunta legítima, interessante e preciosa: afinal, o que procuram as empresas? Quando contratam, o que pretendem de um futuro trabalhador? Para quem se interroga sobre o seu futuro profissional ou formativo, conseguir algumas pistas sobre a resposta a estas questões pode ser uma ajuda valiosa.
Saber fazer, isto é, a componente técnica, continua a ser valorizada. Isso talvez não seja uma grande novidade. Mas há mais, bastante mais. As empresas procuram para além disso. Três empresas da região, em sectores distintos e com posições de destaque, ajudam-nos a deslindar os ingredientes, mais ou menos secretos, que um candidato deve ter.
“Mais do que uma lista de qualificações formais, procuramos profissionais com sentido de responsabilidade, capacidade de resolver problemas e vontade de aprender”, revela Tiago Roxo, Head of People da Tekever. Esta empresa originária das Caldas da Rainha já expandiu a atividade para vários pontos do país e do estrangeiro, com destaque para o Reino Unido. O desenvolvimento de tecnologia, produtos e serviços nas áreas das Tecnologias de Informação e Comunicação, Aeronáutica, Espaço, Defesa e Segurança está no centro da sua atividade. Atualmente, a empresa está “numa fase de forte expansão internacional, tendo ultrapassado os 1.200 colaboradores em 2025”, adianta.
Na indústria, o retrato é semelhante. No Grupo Socem, empresa sedeada no concelho de Alcobaça, mas com forte pendor internacional no sector da engenharia e produção de moldes de alta precisão e injeção de plásticos, Dóris Mota, Talent & Culture Development Leader, sublinha que o objetivo passa por “encontrar um equilíbrio entre competências técnicas sólidas e um alinhamento com a nossa cultura organizacional”, valorizando tanto conhecimentos específicos como a resolução de problemas, a responsabilidade e a orientação para resultados.
Já na área da engenharia e construção, a Bilt acrescenta uma nuance importante: a exigência de adaptação a contextos imprevisíveis. “Procuramos solidez técnica, mas também forte capacidade de adaptação, porque temos um ambiente muitas vezes volátil em obra”, explica Yasmin Filipe, diretora financeira e de empresa. A par disso, surgem fatores como “responsabilidade, rigor e trabalho em equipa”, essenciais num sector onde o erro tem impacto imediato.
Na prática, tanto numa tecnológica como numa empresa industrial ou de construção, o ponto de encontro é claro: o conhecimento técnico é essencial, mas insuficiente. “Trabalhamos em equipas com elevado grau de autonomia, por isso valorizamos quem transforma conhecimento em resultados”, explica Tiago Roxo. Já Dóris Mota defende que “tão ou mais importante que as competências técnicas, advêm a atitude, o carácter da pessoa”.
Essa ideia é reforçada na Bilt. “Prefiro que as pessoas tenham vontade de fazer e de aprender, porque isso nós podemos ensinar”, sublinha o CEO, Hélder Gonçalves, contrapondo perfis muito certificados mas pouco proativos. Yasmin Filipe acrescenta: “as competências ensinam-se, mas a vontade de aprender e o sentido crítico têm de vir da pessoa”.
“Soft skills” e cultura de empresa q.b.
Essa valorização das chamadas “soft skills” surge, aliás, de forma transversal. Na Tekever fala-se em adaptabilidade, comunicação, trabalho em equipa e maturidade emocional. Na Socem, destacam-se “comunicação eficaz, inteligência emocional, capacidade de trabalhar em equipa e adaptabilidade”. Na BILT, surgem ainda conceitos como resiliência, automotivação e capacidade de integração em equipa. Como resume o CEO da empresa, “se a pessoa não for social, se não gostar de trabalhar em equipa, tudo isso acaba por pesar mais do que a componente técnica”.
O alinhamento com a cultura da empresa é igualmente determinante. “Um profissional tecnicamente excelente, mas desalinhado com a cultura, terá sempre impacto limitado — ou até negativo”, alerta Dóris Mota. Também na Bilt essa preocupação é evidente, com a aposta em equipas que combinam experiência com irreverência: “junta-se quem tem experiência com quem não tem, mas tem vontade de aprender”, criando um equilíbrio entre solidez e inovação.
Há ainda outro traço comum: a abertura a perfis menos convencionais. “Damos oportunidade a pessoas que não tenham tanta experiência, mas que tenham vontade de aprender”, refere Carolina Santos, responsável de recursos humanos da Bilt. O CEO Hélder Gonçalves confirma essa aposta: jovens com “garra” podem encontrar espaço para crescer, lado a lado com profissionais mais experientes.
Com a Inteligência Artificial a ganhar terreno, as três realidades voltam a convergir. Tiago Roxo admite que esta tecnologia funciona “como um acelerador de produtividade”. Dóris Mota considera que está a “reconfigurar funções”. Na Bilt, a leitura é pragmática: “a IA não vem substituir pessoas, vem facilitar a vida das pessoas”, resume o CEO.
Yasmin Filipe reforça a ideia de limite da tecnologia: “há uma coisa que ela não faz, é o pensamento crítico”. Pode ajudar em tarefas operacionais ou analíticas, mas “a análise cabe-nos a nós”. Também Carolina Santos aponta ganhos concretos — por exemplo, na agilização de tarefas de comunicação em recrutamento — mas sempre como complemento, nunca substituição.
No essencial, o impacto da IA parece apontar no mesmo sentido: reforçar o valor das competências humanas. Pensamento crítico, criatividade, empatia, discernimento e capacidade de decisão tornam-se ainda mais centrais num contexto em que as tarefas repetitivas tendem a ser automatizadas.
Para quem está a começar, as recomendações cruzam-se, mas ganham também novas camadas. Na Tekever, a base técnica sólida continua a ser essencial, a par da aprendizagem contínua. Na Socem, o conselho é claro: “não apostar apenas no ‘saber fazer’, mas também no ‘saber ser’”, investindo no autoconhecimento e na inteligência emocional.

Na Bilt, o apelo é duplo. Por um lado, escolher uma área de que se goste: “se fizerem aquilo de que gostam, não estão a trabalhar”, diz o CEO. Por outro, olhar para o mercado e identificar oportunidades — nomeadamente em áreas com falta de profissionais. “Há uma grande carência de quadros intermédios e profissionais qualificados”, alerta, destacando a construção como um dos sectores onde essa escassez é mais evidente.
Num tempo em que muitos percursos foram desvalorizados, há sinais de inversão. “Hoje há profissões técnicas muito bem pagas e com grande procura”, sublinha, lembrando que o mercado recompensa cada vez mais quem se diferencia — seja pela especialização, seja pela atitude.
No fundo, para além de diplomas, as empresas procuram pessoas capazes de aprender, adaptar-se e contribuir.