A minha primeira desilusão laboral aconteceu quando dancei “cancan” na creche, munida de uma saia de papel higiénico. O jeito era tal, que preferi mudar de área e apostar na reconversão de carreira.

Chorei um bocado, é verdade, mas aprendi que além da vocação é fundamental saber fazer. Contrariando o desânimo, resolvi ser paraquedista e, para testar a convicção, comecei a atirar-me de cima das mesas dos cafés. Muitas nódoas negras e algumas lesões depois, soube que aquilo também não era para mim.

Certo dia, andava eu na 4.ª classe, percebi que era diferente da maioria dos meus colegas. Não queria ser professora, cabeleireira, ou médica, menos ainda, casar para procriar, como ambicionavam muitas meninas da minha idade. Queria ser estilista, desenhar roupa e vestir o mundo com inspiração e arte.

Escusado será dizer que, especialmente numa aldeia pequena, ninguém sabia o que raio significava aquela palavra estranha e que bicho raro era eu.

Embora a paixão pelos trapos faça parte do meu teatro de operações, nunca exerci a profissão imaginada. Ainda assim, e contra todos os desastres anunciados, aquela decisão transformou a minha vida num irreverente diálogo de formas, cores, imagens, texturas e poesia.

No meu tempo (credo, que pareço uma publicidade do ‘Continente’) era possível escolher entre a via de ensino: Artes ou a via tecnológica: Design.

Ao optar pela última, choveram comentários do género “Então, tu tens notas tão boas e vais escolher isto!? Podias ir para a Universidade. É uma pena”. Aqui está o exemplo perfeito de um complexo sem qualquer razão de ser… Sempre quis entrar na faculdade, e entrei, mas o Design era o que mais se aproximava daquilo que realmente me interessava, com a enorme vantagem (achava eu, na mais profunda ignorância), de ter métodos quantitativos em vez da matemática.

Esta lengalenga toda para vos dizer o quê? Escutem com atenção todos os conselhos dos pais, amigos, irmãos, avós e até dos periquitos da vizinha, no entanto, não permitam que os vossos sonhos emigrem e metam licença sabática por vontade alheia.

Ilustração: Jorge Morgado

(Artigo publicado na edição de 18 de junho de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)