Assinar Edições Digitais

Patrícia Duarte

Diretora-adjunta

As árvores que abatem os políticos

O abate sem explicação prévia, e durante o período de confinamento, foi sentido como uma punhalada nas costas. A população não se tem calado.

Se há tema que pode fazer cair um político é este: árvores. Em 2016, o vereador Lino Pereira perdeu dois dos seus pelouros – entre eles o dos espaços verdes – devido ao corte de laranjeiras, no Terreiro, em Leiria.

Antes disso, a autarquia já tinha avançado com cortes “polémicos” noutros pontos da cidade, alterando a fisionomia de avenidas e ruas como a Machado dos Santos, Dr. José Jardim e Dr. João Soares.

A Câmara de Leiria aprendeu a lição. Nem que seja uma árvore, sabe que tem de se munir de estudos e de fortes argumentos para a cortar. Sabe também que tem de esclarecer convenientemente os munícipes sobre os fundamentos dessa decisão e apresentar um plano para compensar a perda.
Essa lição, porém, não chegou à União de Freguesias de Souto da Carpalhosa e Ortigosa, onde se determinou o corte de mais de uma centena de árvores, num dos espaços mais acarinhados pela população: o Parque da Lagoa.

O abate, só por si, já acertaria diretamente no coração das pessoas. O abate sem explicação prévia, e durante o período de confinamento, foi sentido como uma punhalada nas costas. A população não se tem calado.


Haverá um estudo que justifique a decisão, mas só na passada segunda-feira foram enviados ao REGIÃO DE LEIRIA alguns documentos, após várias semanas a interpelar a presidente de Junta sobre o sucedido.

Já não se faz política assim, do alto de um pedestal, ignorando todos os pedidos de informação que chegam. Hoje, exige-se aos autarcas transparência e disponibilidade para acolher as perguntas dos jornalistas. Eles são os ouvidos, os olhos e a voz da população. Informar os jornais é informar a comunidade.

O que vai acontecer à presidente Eulália Crespo não se sabe. O que se sabe é que se amanhã se apresentasse a eleições provavelmente perderia.
Um político pode fazer tombar centenas de árvores, mas basta uma árvore para fazer tombar um político. Hoje, já ninguém é tão forte que consiga impor uma decisão, ignorar o debate e a exigência de informação ou resistir à mobilização dos cidadãos na defesa de um bem público.

Chama-se democracia.