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Célia Sousa

Coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID) e docente do Politécnico de Leiria

As palavras que constroem respeito

A linguagem molda mentalidades. E as mentalidades moldam o mundo em que vivemos. Por isso, antes de falar, vale a pena pensar nas palavras que escolhemos. Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva começa muito antes das leis ou das rampas.

As palavras têm um poder que nem sempre medimos, as palavras parecem pequenas, mas têm, além de outros, o poder de incluir ou de excluir. Não são inofensivas. Moldam a forma como vemos o mundo e como vemos os outros. Uma palavra dita pode abrir um caminho ou levantar um muro.

Quando falamos de deficiência, aquilo que dizemos revela mais do que imaginamos. Durante décadas, habituámo-nos a usar palavras que reduzem a pessoa à sua condição: “deficiente”, “inválido”, “portador”. Termos herdados de um olhar antigo, centrado apenas na doença e no diagnóstico. Um olhar que esquece a pessoa e ignora o papel da sociedade.

A deficiência não existe apenas na diversidade humana, existe nas barreiras que a sociedade cria: na escola que não se adapta, na cidade que não elimina barreiras, na comunicação que exclui. E existe, muitas vezes, na linguagem que usamos no dia a dia.

Continuamos presos a dois extremos: a pena ou a exaltação. Ou se olha para as pessoas com deficiência como “coitadas”, ou se aplaudem como “heróis” que se superam. Entre estas duas narrativas sobra pouco espaço para aquilo que deveria ser mais simples: reconhecer que a diversidade faz parte da condição humana.

Mas as ideias não vivem apenas nas atitudes. Vivem nas palavras.

No discurso público e mediático repetem-se expressões como “a economia está coxa”, “a ministra é autista”, “andam todos cegos” ou “o governo continua autista”. São ditas como metáforas banais, quase automáticas. No entanto, carregam uma mensagem clara: associam a deficiência a algo negativo, defeituoso ou indesejável, é assim que o capacitismo se instala na linguagem, de forma silenciosa e quase invisível.

As palavras não são neutras. Mesmo quando não existe intenção de ferir, podem reforçar estigmas e apagar identidades. Pelo contrário, quando escolhemos corretamente, ajudamos a construir uma sociedade mais consciente e mais justa.

Não se trata de “fiscalizar as palavras”. Trata-se de respeito.

Falar corretamente é colocar a pessoa em primeiro lugar. É reconhecer que ninguém se resume a um diagnóstico.

Por isso, hoje privilegiam-se expressões como:
– Pessoa com deficiência
– Pessoa com incapacidade
– Pessoa com diversidade funcional
– Pessoa neurodivergente
– Pessoa no espetro do autismo
– Pessoa com necessidades específicas
– Pessoa com mobilidade condicionada ou reduzida
– Pessoa que usa cadeira de rodas
– Pessoa com deficiência visual ou pessoa cega
– Pessoa com baixa visão
– Pessoa Surda (falante de Língua Gestual Portuguesa; muitas não se identificam como pessoas com deficiência)
– Pessoa surda
– Pessoa com deficiência auditiva
– Pessoa com deficiência intelectual ou cognitiva

E convém relembrar: diz-se Língua Gestual Portuguesa (LGP), não “linguagem gestual”, a LGP está reconhecida como língua na Constituição da República Portuguesa, desde 1997.

Pode parecer um pormenor linguístico. Não é!

A linguagem molda mentalidades. E as mentalidades moldam o mundo em que vivemos.

Por isso, antes de falar, vale a pena pensar nas palavras que escolhemos. Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva começa muito antes das leis ou das rampas.

A inclusão começa na forma como respeitamos as pessoas.