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Foto de rosto a preto e branco de J. Afonso

J. Afonso

Reformado

Coisas… Quando tudo parece desabar…

Em situações de crise toda a energia disponível deve ser concentrada naquilo que é possível controlar; a dispersão de esforços em ações sobre variáveis que não dominamos é desperdício que pode sair caro.

“A emoção, que constitui sofrimento, deixa de ser sofrimento logo que formamos uma ideia clara e distinta a seu respeito”, escreveu em 1946 um ex-prisioneiro de Auschwitz (*1) após descrever a série de atrocidades a que era sujeito e ilustrar a estratégia que adotou: nas suas palavras, forçar o seu “pensamento a voltar-se para outros assuntos”.

E, no tenebroso cenário nazi, prossegue a descrição do que imaginou: “vi-me, de súbito, de pé numa sala de leitura bem iluminada, quente e agradável (…) Estava a dar uma conferência sobre a psicologia nos campos de concentração (…) consegui de certa forma erguer-me acima da situação, acima dos sofrimentos do momento, e olhei-os como se já fizessem parte do passado.”

Os tempos que temos vivido por conta de uma natureza implacável não podem comparar-se à barbárie perpetrada por energúmenos de todos os matizes. Porém, também por cá as emoções – o medo, a raiva, a tristeza, etc. – tomaram conta de cada um de nós e em cada um deixaram as suas marcas.

E se é certo que as emoções são incontroláveis, também é certo que são momentâneas: o seu ímpeto não deixa margem para mais que “esperar que passem”. E passam rápido, deixando como rasto sentimentos ou, dito de outra forma, estados de alma.

Ora, se não comandamos a Emoção resta-nos intacta a Razão que pode ajudar-nos a lidar com os estados de alma.

E poderemos optar por nos mantermos abatidos sob o peso da calamidade, lamentando a pouca sorte que se abateu sobre nós, sentindo-nos injustiçados pela natureza, revoltando-nos com a falta de ajudas, destilando ressentimento paralisante contra tudo e contra todos e ansiando pelo momento em que – parecemos acreditar – tudo no universo se conjugará para que o nosso mundo volte a ser perfeito.

Ou, tal como o prisioneiro de Auschwitz, podemos canalizar o pensamento em ordem a erguermo-nos acima do sofrimento do momento e olhá-lo como se fosse já algo pertencente ao passado: estaremos a servir-nos da Razão para alimentar uma reflexão ponderada e identificar caminhos de saída.

Por essa via, sairá reforçado o nosso protagonismo na busca e concretização de soluções.

Inspirando-me em “Uma Boa Crise – Viver bem em tempos difíceis” (*2) , vejamos alguns princípios úteis nos tempos que vivemos:

– A aceitação da realidade é essencial na criação do espaço propício à geração de vias de solução para os problemas reais; tudo quanto se traduza em negá-la, reduz a margem para encontrar saídas.

– Seja qual for a origem da crise, cabe a cada um dos que por ela são atingidos agir em ordem a minimizar ou anular os seus efeitos; obviamente, a vitimização em nada contribui para tal.

– Em situações de crise toda a energia disponível deve ser concentrada naquilo que é possível controlar; a dispersão de esforços em ações sobre variáveis que não dominamos é desperdício que pode sair caro.

E poderíamos continuar: a inação torna as coisas mais difíceis, a flexibilidade e a capacidade de adaptação são decisivas, redobra a importância das relações pessoais e da solidariedade, etc.

Em suma, só as vítimas mortais provocadas são dramaticamente irreversíveis: honra às suas memórias e condolências às respetivas famílias! Votos de rápida recuperação dos feridos!

Aos que ficámos salvos e sãos cabe agir, minimizando estragos, apreendendo o que possa melhorar a nossa capacidade preventiva e, na medida do possível, aproveitando a oportunidade para não repetir erros.

Saibamos construir o futuro: será lá que viveremos!

Notas
*1) O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, em “O Homem em Busca de um Sentido”.
*2) De Álex Rovira, escritor nascido em Barcelona.