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Crónicas do quinto império: O Cavaleiro de Deus

Faz um apelo veemente para que olhemos para a Síria, onde o povo sofre horrores.

Joaquim Ruivo, professor jruivo2@sapo.pt

Conheci-o num encontro sobre Direitos Humanos em Santarém. É um jovem curdo-sírio e estuda em Espanha há dois anos.

Só há pouco tempo tem coragem de dizer o seu verdadeiro nome, não por ele, mas porque sempre receou represálias sobre a sua família que continua na Síria.

Mostrou-nos imagens de um homem enterrado até ao pescoço, rodeado de soldados armados, suplicando por Alá que o matem com um bala, enquanto lenta e sadicamente lhe vão colocando pasadas de terra em volta da cabeça.

E outras imagens de um adolescente apavorado, dentro de um automóvel, a ser continuamente esbofeteado e a levar choques elétricos no pescoço com um taser, enquanto os sequestradores lhe perguntam: Porque é que estás contra o nosso presidente? Tens alguma coisa contra o nosso presidente?

Outras ainda de uma menina após um bombardeamento. Tem um braço desfeito. O médico tenta dar-lhe uma injeção e só pergunta: Vais matar-me, vais matar-me? Onde está o meu irmão? – sem ver o seu irmão, ali ao lado, com um perna destroçada.

Fez um apelo veemente para que olhemos para a Síria, onde o povo sofre horrores.

Não compreende porque é que o mundo inteiro não auxilia imediatamente os seus compatriotas que lutam e morrem pela liberdade a meio de sofrimentos indiscritíveis. Não compreende porque é que os media não noticiam o que se está a passar na Síria, porque é que os governantes europeus não pressionam suficientemente.

Pouco o satisfaz a resposta que no Conselho da Segurança da ONU a Rússia e a China têm vetado uma intervenção mais direta.

Nem o satisfaz o argumento que, apesar de tudo, a situação da Síria tem sido bastante noticiada.

Falou-me ainda do seu povo – os curdos – a maior etnia sem Estado do mundo (26 milhões de pessoas), que habitam uma vasta região do Oriente Médio, abrangendo partes da Turquia, Iraque, do Irão, da Síria e da Arménia; falou-me ainda do seu país desejado, o Curdistão, que nunca o foi, porque as potências vencedoras da 1ª Guerra não cumpriram o previsto no acordo inicial; falou-me da proibição de ensinar o curdo e de como o fazia às escondidas enquanto jovem estudante universitário.

Claro que não lhe justifico a apatia que atravessamos, nem lhe explico os problemos que nos preocupam: a crise económica, a depressão, o desemprego, a perda dos subsídios de férias e Natal, a “troika”, a Merkel…

Chama-se Siwar Ala – que significa “Cavaleiro de Deus”.

(texto publicado na edição em papel de 11 de maio de 2012)