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Rosto de Francisco Rebelo dos Santos

Francisco Rebelo dos Santos

Diretor

Entre lágrimas e esperança

O caminho mais fácil seria criticar o que não foi feito e duvidar das respostas em curso. Mais tarde poderemos até revisitar tudo, (…). Aqui e agora, todos precisamos de foco e coragem para reconstruir e recuperar.

A região que é casa comum enfrenta uma difícil prova de vida, num confronto que não deixa ninguém indiferente. Com o impacto da Pandemia ainda presente, depois dos grandes fogos de 2017 (Pedrógão Grande e Pinhal de Leiria) e do furacão Leslie, em 2018, entrou-nos pela madrugada, na passada quarta-feira, o mais violento fenómeno meteorológico vivido em Portugal.

Como num filme de terror, sobra um rasto de destruição que sublinha a nossa pequenez perante a fúria da natureza. Em cerca de três horas, foi semeado o caos geral, desde as praias da nossa costa ao interior do distrito. O poder da tempestade fez-se sentir em dezenas de concelhos do país, mas foi a Leiria e a esta região que chegaram os maiores e mais graves impactos. O vento levou-nos o acesso à água, energia e comunicações, fechou empresas e serviços públicos, confinou o quotidiano às ruínas e escombros, entre raízes arrancadas do ventre da terra.

Ainda em choque, quase incrédulos, só podemos responder com atitude grande e comportamento exemplar. O caminho mais fácil seria criticar o que não foi feito e duvidar das respostas em curso. Mais tarde poderemos até revisitar tudo, exigir esclarecimentos e retirar ilações, mas nos dias que correm isso será apenas ruído que nos afasta do que é importante e urgente. Aqui e agora, todos precisamos de foco e coragem para reconstruir e recuperar; a vida tem de seguir em frente.

A dor será muito grande, vamos viver com a perda de vidas humanas e a dimensão colossal de prejuízos materiais. Contudo, conscientes da dramática realidade, será mais fácil avançar para a reconstrução e convocar até a força emocional que aparentemente não temos.

Depois da depressão Kristin, nada ficará igual, as prioridades passam a ter outros alinhamentos, as preocupações alargam-se a novas frentes e cumprimos o refrão ‘começar de novo’ em jeito de esperança, assumindo que confiança e coragem são imperativo de vida. O futuro vai ser diferente, vamos sentir os espaços verdes órfãos de árvores, muitas com dezenas de anos, algumas centenárias. Teremos saudades das velhas igrejas, de recintos desportivos e de instalações fabris que nos habituámos a ter como referência. Alguns espaços irão perder-se para sempre, outros vão conhecer reconstruções, nada ficará igual.

Nesta caminhada em que respondemos às adversidades, se nos faltar ânimo, deixemo-nos tocar pelo exemplo de milhares de voluntários que vieram ajudar e pela fraternidade que se estabeleceu entre vizinhos, bem como pela entrega de autarcas, bombeiros, forças de segurança e outros representantes do Estado. Uns por amor ao próximo e cidadania, outros por dever de ofício, todos fazem parte deste percurso.

Não desistir é homenagear quem partiu, e quem está, e quem vem a seguir, é cumprir a vida.

Já o disse: a região que é casa comum enfrenta uma difícil prova de vida. Falta acrescentar a certeza de que podemos estar a viver dias sem fim, mas não podemos decretar o fim dos dias. Até já.