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Jorge Vieira da Silva

Diretor-Geral da ETAP

Inconformismos: Proibir é fácil, educar dá trabalho

Proibir não ensina autocontrolo, não desenvolve pensamento crítico, não promove responsabilidade. Apenas adia o problema para fora dos muros da escola.

Sempre que surge uma nova tecnologia, a reação repete-se: medo, desconfiança e, por fim, o pedido de proibição. Aconteceu com a calculadora, com a internet, com o telemóvel e, agora, com a inteligência artificial.

Em muitas escolas discute-se se devemos proibir o uso do telemóvel em sala de aula ou impedir os alunos de recorrerem a ferramentas de IA na realização de trabalhos. Como se fosse possível preparar jovens para o mundo real criando, dentro da escola, um mundo paralelo.

As escolas não podem transformar-se em ilhas. A sua missão não é proteger os alunos da realidade, mas prepará-los para ela. E a realidade, quer gostemos ou não, é profundamente tecnológica.

O telemóvel está no bolso, a inteligência artificial está no computador e nos próprios dispositivos móveis, e continuará lá quando o aluno sair da escola. A questão não é se vão usar estas ferramentas. A questão é como as vão usar.

Proibir é o caminho mais fácil. Dá uma sensação imediata de controlo e simplifica, aparentemente, o trabalho docente. Mas é também o caminho menos educativo. Porque proibir não ensina autocontrolo, não desenvolve pensamento crítico, não promove responsabilidade. Apenas adia o problema para fora dos muros da escola. E, em muitos casos, a proibição acaba por esconder outra dificuldade: a de alguns adultos não dominarem – ou não se sentirem confortáveis com – as mesmas ferramentas que os alunos já utilizam naturalmente.

O desafio não está na tecnologia, está na pedagogia. Enquanto insistirmos em metodologias assentes na repetição, na reprodução de conteúdos e em trabalhos facilmente “copiáveis”, qualquer ferramenta digital será vista como ameaça. Mas quando se muda a lógica, quando se pede análise, reflexão, aplicação, criação , a tecnologia deixa de ser um atalho e passa a ser um meio.

Um chatbot de inteligência artificial pode servir para copiar uma resposta pronta, é verdade. Mas pode também ser usado para estruturar ideias, explorar perspetivas, melhorar a escrita, comparar fontes, aprender a questionar melhor. Tudo depende do que pedimos aos alunos e de como os acompanhamos nesse processo.

O mesmo vale para o telemóvel. Pode ser distração, mas pode ser ferramenta: de pesquisa, de registo, de comunicação, de criação de conteúdos. A diferença não está no objeto, está na intencionalidade pedagógica. Ensinar a usar é mais difícil do que proibir, mas é incomparavelmente mais formativo.

Preparar para a vida implica ensinar a usar a tecnologia com critério, ética e autonomia. Implica falar de limites, dependências, enviesamentos, fontes fiáveis e responsabilidade. Implica aceitar que o professor deixa de ser o único detentor da informação para passar a ser mediador, orientador e provocador de pensamento. Dá mais trabalho? Dá. Mas também dá mais sentido.

As escolas que escolhem proibir estão, muitas vezes, a escolher o conforto do presente em detrimento da relevância futura. Educar nunca foi o caminho mais fácil. E talvez seja tempo de lembrar que a função da escola não é simplificar o trabalho dos adultos, mas complexificar, com sentido, a aprendizagem dos jovens.

Proibir é simples. Educar é exigente. E o ensino profissional – se quiser ser verdadeiramente profissional – não pode ter medo do mundo para o qual diz preparar.

Sugestão de leitura:

Mais IA, Melhor Educação” do Prof. Jorge Rio Cardoso

Livro que explica como usar a IA de forma inteligente, ética e pedagógica, e que ajuda a ver a tecnologia como aliada e não como inimiga, mostrando como as ferramentas tecnológicas podem aprofundar aprendizagens, desenvolver pensamento crítico e preparar alunos e professores para os desafios reais do século XXI.