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Paulo Ventura

Coordenador da Iniciativa Liberal Leiria

Leiria não existe no mapa político nacional: motor económico, anão político

Após visitar vários pontos do concelho, percebi que, mais uma vez, Leiria, e o distrito, estavam a ser desconsiderado pelo poder central, que tardava em ouvir os apelos dos autarcas e das populações afetadas.

Durante a minha candidatura a presidente da Câmara Municipal de Leiria, nas últimas autárquicas, disse várias vezes que Leiria era desconsiderada em áreas de especial competência do poder central, como a Saúde e a Segurança. Essa falta de respeito revelava-se na incapacidade do Estado Central, entenda-se Governo, de cumprir funções essenciais, obrigando os municípios, apesar de não ser sua competência, pela proximidade às populações, a despender verbas relevantes dos seus orçamentos para suprir estas necessidades.

A 28 de janeiro abateu-se em Leiria, uma terrível catástrofe que devastou vidas, famílias, habitações, empregos, escolas, associações e infraestruturas, incluindo a rede elétrica, com forte impacto na atividade económica local.

Após visitar vários pontos do concelho nesse dia, percebi que, mais uma vez, Leiria, e o distrito, estavam a ser desconsiderado pelo poder central, que tardava em ouvir os apelos dos autarcas e das populações afetadas.

Desloquei-me a Pombal para conseguir comunicações e solicitar à Comissão Executiva da Iniciativa Liberal pressão política para a declaração do Estado de Calamidade e a mobilização célere de ajuda nacional, tendo recebido de imediato a solidariedade da mesma e a disponibilidade da sua presidente para se deslocar a Leiria e dar visibilidade à realidade vivida. O Governo liderado por Luís Montenegro mostrou-se hesitante, levando mais de 30 horas a fazê-lo, apesar dos apelos de autarcas e da Iniciativa Liberal. Primeira desconsideração a Leiria!

Dias depois, após vários briefings da Proteção Civil em que estive presente, tornou-se claro que o maior desafio seria o restabelecimento da energia. No dia 5 após a catástrofe, questionei o presidente da E-Redes sobre a não ativação do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, tendo sido transmitido, em conferência de imprensa, que existiam meios nacionais suficientes. À data em que escrevo, 18 dias após a calamidade, freguesias como Bidoeira de Cima, Monte Redondo, Colmeias e Memória continuam com milhares de contadores sem energia. O Governo recusou ativar o mecanismo, mesmo após pressão de vários partidos e autarcas. Segunda desconsideração!

As tempestades seguintes agravaram a situação, provocando retrocessos na reposição da normalidade e vítimas indiretas. Entretanto, as cheias em Coimbra captaram a atenção mediática e governativa, que de imediato se deslocou ao local. O aluimento na principal autoestrada do país passou a dominar a narrativa nacional, secundarizando vítimas mortais, feridos e prejuízos registados em Leiria.

Não tenho nada contra Coimbra, onde vivi e estudei durante alguns anos. Mas importa comparar: o distrito de Coimbra tem menos cerca de 65.000 habitantes do que o de Leiria, com capitais de dimensão semelhante, mas influência política incomparável. Terceira desconsideração a Leiria!

O problema é estrutural. Leiria nunca teve peso político proporcional à sua relevância económica, industrial e exportadora. É um dos distritos mais industrializados do país, com forte vocação exportadora.

Contudo, essa força nunca se traduziu em igual influência nos centros de decisão, nem em investimento público proporcional. Contribui-se muito para a riqueza nacional, mas recebe-se menos atenção política e menor capacidade de resposta do Estado. Leiria não tem peso de decisão nos maiores partidos com assento na Assembleia da República.

A desconsideração arrasta-se há décadas. Cabe-nos, enquanto leirienses, alterar essa situação.

Quando não nos respeitam, temos de nos dar ao respeito!