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Rosto de Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos

Médica | hml.vasconcelos@gmail.com

O meu diário: Contrair COVID

Contrair COVID para os profissionais de saúde é sempre um drama maior do que para a restante população. Sempre que alguém dos nossos é atingido é rotulado de negligente. Se apanharmos COVID em casa, nas nossas relações, estamos tramados porque arrastamos esta desgraça para o nosso local de trabalho, onde não estamos autorizados a falhar. Se apanharmos COVID a trabalhar, parece um pecado ainda maior, porque temos tudo ao nosso dispor para nos protegermos. De uma forma ou outra, somos olhados de lado porque ainda que o risco seja maior, a responsabilidade parece ser gigante.

A chatice disto tudo reside em várias variáveis difíceis de controlar. Primeiro, esta pandemia já dura há 9 meses, e ninguém consegue viver sozinho tanto tempo. Temos filhos e família, temos amigos e colegas. Ainda que restrinjamos a nossa vida social, é impossível não jantar, almoçar ou mesmo dormir com alguém. Se as crianças são pequenas tem de ser mimadas sob pena de hipotecarmos as nossas relações definitivamente. E as crianças vão à escola e os filhos jantam com outros amigos e têm namorados e namoradas e por aí fora.

No trabalho também comemos (é verdade a malta também come, dorme e vai à casinha de banho) e temos uma série de comichões no nariz, na testa e em outras partes da cara. O elástico das máscaras chinesas está longe de ser 100% seguro e de vez em quando lá salta uma máscara da cara, com a mania que nasceu para fisga. Quantas vezes dou por mim a perceber que me esqueci de colocar os óculos, que me faltou um par de luvas e que a segunda bata não foi colocada. Não é fácil esta dança de veste e despe, sobretudo quando o pânico se dissipou e estes rituais fazem parte da nossa rotina.

Quantas vezes dou por mim a perguntar se já lavei a marquesa ou não, ou se já troquei a máscara ou não. Claro que quando a dúvida me assiste tento fazer de novo sob pena de me ter esquecido. Mas existirão vezes que me esqueço? Espero bem que não, mas nunca se sabe.

Aos meus caros colegas que se infetaram digo que podem contar sempre comigo para vos defender. Só quem não vive as situações pode mostrar indiferença e julgamentos sumários. Agora que já se acabaram as palmas o que pedimos é que não nos atirem coisas à cara que a nossa vida está longe de estar fácil. Fiquem bem, fiquem seguros.

(Artigo publicado na edição de 5 de novembro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)