Penso que, a opinião pública apreendeu, quase instantaneamente, que os heróis contemporâneos não são os profissionais mais famosos nem sequer os mais bem pagos. Na verdade, já toda a gente se terá apercebido o quanto a sociedade depende de todos, mas, também, de alguns em especial. Refiro-me, evidentemente, aos médicos e outro pessoal de saúde, mas não apenas a esses. Não podemos, por exemplo, esquecermo-nos que sem funcionários de limpeza os hospitais não funcionariam, pois o trabalho destes é quase tão arriscado como o de clínicos e enfermeiros, no entanto a sociedade, nós, nem nos lembramos de que eles existem. Por isso, são tão importantes as imagens que nos chegam de Barcelona, onde médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, fizeram um «cessar fogo» para aplaudir os funcionários da limpeza que com eles trabalham e arriscam a vida. Do mesmo modo, bombeiros e polícias, tão pouco reconhecidos em tempos de paz, revelam ser essenciais à vida de todos.

De entre todas as áreas de atividade que se têm revelado nevrálgicas na guerra contra o vírus, há uma que, como diria Confúcio, está tão perto dos nossos olhos que nem a enxergamos. Falo da comunicação social que, além da fundamental missão de informar, tem conseguido manter as pessoas em casa, seja ocupando o seu tempo, seja sensibilizando-as para o cumprimento daquilo que a todos é exigido.

A comunicação social foi, particularmente, importante ao dar-nos nota do desastre italiano e espanhol o que nos permitiu, muito rapidamente, assimilar a gravidade do problema.

Temo que os ganhos, decorrentes do receio incutido pelas noticias do desastre na Europa do sul, estejam a ser desbaratados pelo excessivo otimismo das autoridades portuguesas.

Seria bem mais pudente e útil tomar medidas, por exemplo, nos transportes públicos onde viajam pessoas “umas em cima das outras”, sem máscara, potenciando assim a contaminação e revertendo o sacrifício que (quase) todos temos feito.

Este papel fundamental está, no entanto, a sair caro aos órgãos de comunicação social que, veem o seu trabalho redobrado, ao mesmo tempo que, por triste ironia, veem cair a pique uma das suas principais fontes de financiamento, a publicidade.

Deveríamos, enquanto sociedade organizada através do Estado, pagar pelo menos uma parte de receitas perdidas, pois se ajudámos os bancos que nunca nos deram nada, é imperativo que o Estado, que somos todos nós, ajude os meios de comunicação social que, nesta hora mais negra, nos ajudam a obter alguma luz.

Termino com uma ideia, em jeito de sugestão, agora que, finalmente, já se pondera o uso de máscaras de forma generalizada – o governo podia e devia recorrer maciçamente aos espaços de publicidade da comunicação social, sejam jornais, sejam rádios, sejam televisões para, por exemplo, explicar às pessoas a forma correta de usar a máscara e luvas.

É preciso ajudar a comunicação social,  pois se tudo correr bem muito se deve a ela e se tudo correr mal, seguramente, sem ela, correria muito pior.

(Artigo publicado na edição de 16 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)