A Covid 19 age como sempre agiu a natureza, por seleção natural, mata os mais débeis. A diferença é que no tempo civilizacional em que nos encontramos desafiamos a morte, esse determinismo da vida, fazemos tudo para a evitar e esconder, mas trata-se de uma luta inglória, a morte é invencível.

De repente, os lares saltaram para as páginas dos noticiários. Mas o que são alguns lares? Pouco mais do que antecâmaras da morte. Muitos dos idosos que os habitam são mortos sociais, não têm mais projetos de vida, esperam que chegue o seu dia e vão assistindo ao encurtar do caminho até ao fim.

Se há coisa que o Coronavírus fez por estes nossos concidadãos e por todos nós foi obrigar-nos a ver o que nos espera se não encontrarmos melhor alternativa. Todos tivemos sonhos, amores, vida própria, sucessos e um dia somos remetidos para um lar onde somos obrigados a compartilhar um espaço com outras pessoas com quem nunca privámos, passamos a ser tratados como crianças sem personalidade e a depender totalmente de quem dirige essas estruturas e de quem nos cuida, sabe-se lá com que formação e sentido ético; nem sequer é reconhecida oficialmente a profissão de cuidador (a) pessoal/assistente pessoal, em Portugal.

Precisamos de outras respostas sociais para quem envelhece ou para quem tem limitações permanentes de autonomia, a institucionalização não deve ser a prioridade. É verdade que a estrutura social do país não nos deixa muitas alternativas, mas também não têm existido políticas públicas, centrais ou municipais, suficientemente robustas para se privilegiarem outras soluções.

O envelhecimento ou as limitações de autonomia não são incompatíveis com padrões de vida independente, que mantenham a nossa privacidade, não nos despersonalizem, não nos matem socialmente e nos permitam manter projetos de vida até ao fim.

(Artigo publicado na edição de 23 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)