A tempestade Kristin, bem como as depressões e cheias que se lhe seguiram, constituíram um teste sério à capacidade de resposta dos territórios (como já tinham sido, nos últimos anos, os incêndios florestais na nossa região).
Em poucos dias, enfrentámos fenómenos extremos que colocaram à prova infraestruturas, serviços municipais, agentes de proteção civil, associações, escolas, empresas e populações. Houve danos e constrangimentos, mas houve também uma notável capacidade de mobilização coletiva.
Estes episódios deixam aprendizagens claras, que devem ser assimiladas e implementadas.
A primeira é que os fenómenos meteorológicos extremos deixaram de ser excecionais. São cada vez mais frequentes e intensos. Isso obriga-nos a deixar de pensar a proteção civil apenas numa lógica de reação e socorro. Precisamos de reforçar a prevenção, o planeamento e a mitigação do risco.
Os planos municipais de emergência devem ser permanentemente atualizados, testados e ajustados à nova realidade climática. Não basta ter o documento aprovado, é essencial que exista treino, simulação e articulação efetiva entre todos os intervenientes: bombeiros, forças de segurança, serviços municipais, juntas de freguesia, militares, gestores das redes (energia e comunicações), agentes educativos, instituições sociais, coletividades e empresas locais.
Outra aprendizagem fundamental é a importância do investimento estruturante. A limpeza e manutenção regular de linhas de água, a desobstrução de sistemas de drenagem, a gestão florestal responsável e o ordenamento do território são medidas menos visíveis, mas decisivas para reduzir impactos futuros. Cada euro investido na prevenção evita custos muito superiores em reparação e emergência.
A comunicação revelou-se igualmente determinante. Informar atempadamente, alertar com clareza e garantir coordenação entre entidades são pilares de uma proteção civil moderna. A tecnologia é hoje uma aliada fundamental, mas nada substitui a proximidade das autarquias e a confiança das populações nos seus responsáveis locais.
Ficou também evidente que a articulação entre níveis de governação é essencial. O Estado cria enquadramentos e instrumentos nacionais; as autarquias conhecem o território e estão na linha da frente. A resposta eficaz nasce da complementaridade e da cooperação institucional.
As aprendizagens não se esgotam na prevenção física do território. A própria organização da Proteção Civil deve evoluir. É necessário reforçar a capacidade operacional local e regional, clarificar responsabilidades, agilizar decisões em contexto de emergência e apostar na formação contínua. Uma estrutura mais flexível, próxima e coordenada será sempre mais eficaz perante fenómenos cada vez mais exigentes.
As tempestades passam, mas as decisões ficam. Governar é antecipar riscos, investir com responsabilidade e mobilizar a comunidade para agir antes da próxima emergência. A proteção civil não é apenas resposta — é visão, compromisso e liderança. Porque proteger pessoas e território deve assumir-se como a primeira missão de quem governa.