A social-democracia europeia nasceu como inquietação e equilíbrio, mais ética do que doutrina, mais coragem do que conforto. Surgiu entre o centro e a esquerda para reconciliar liberdade com justiça social, recusando os absolutos fáceis e os dogmatismos redentores. Nunca prometeu mundos perfeitos, mas compromissos exigentes, conscientes da imperfeição humana e da necessidade de moderação com coragem moral. Sempre foi um território difícil, onde ceder não é capitular e onde a firmeza não se confunde com rigidez.
Em Portugal, essa matriz teve expressão plural. O Partido Socialista foi, desde a origem, um partido social-democrata, herdeiro da tradição europeia que rejeitou tanto o capitalismo selvagem como o socialismo autoritário. A sua identidade foi sempre reformista e humanista, não revolucionária nem maximalista. A social-democracia esteve inscrita no seu ADN, mesmo quando conjunturas históricas ou lideranças tentaram deslocar o centro do discurso.
Esse espírito encontrou tradução institucional com a fundação do PPD, mais tarde PSD, por Francisco Sá Carneiro e Francisco Balsemão. Ambos provaram que a social-democracia se constrói com risco e não com prudência acomodada. Combateram o Estado Novo quando isso implicava isolamento e perseguição. O PPD não nasceu como partido de direita, mas como força democrática ampla, reformista e popular, ancorada na social-democracia europeia. Não é irrelevante que o órgão da Juventude Social-Democrata se chamasse então “Pelo Socialismo”, liderado por Paulo Portas, um título hoje desconcertante, mas revelador da identidade política do tempo.
Com os anos, o PSD afastou-se desse tronco fundador. A deriva à direita foi gradual, mais fruto de acomodação do que de rutura ideológica, substituindo a coragem por pragmatismo eleitoral. Ainda assim, a sua matriz original não corresponde à de uma direita clássica. A social-democracia tornou-se ali mais memória do que prática, permanecendo como pensamento vivo sobretudo à esquerda do sistema partidário.
Ser social-democrata exige coragem para resistir ao populismo, para limitar os excessos do mercado e do Estado, e para aceitar derrotas sem abdicar de princípios. António José Seguro sempre se situou nesse espaço de centro-esquerda, com coerência e estabilidade, mesmo quando isso lhe custou protagonismo interno.
Foi braço direito de António Guterres, partilhando uma visão humanista da política. Com José Sócrates manteve distância; com António Costa, quase inexistência. Foi Costa quem protagonizou uma das páginas mais ingratas do PS ao afastar Seguro de forma calculista, empobrecendo o debate interno e deixando marca.
O tempo, porém, tem justiça própria. Seguro reuniu socialistas que antes o criticaram, bem como sociais-democratas e liberais à sua direita. Não por oportunismo, mas porque a coerência tranquila acaba por impor respeito. A política passa; a integridade fica.
Há ainda um traço concreto a sublinhar: Seguro colocou Caldas da Rainha no mapa político nacional, não como símbolo, mas como ponto de partida real e casa da vitória. Mostrou que a política pode nascer fora dos centros habituais de poder e aí proclamar-se.
No fim, talvez a social-democracia seja isso: resistir ao ruído, manter fidelidade a uma justiça equilibrada e aceitar que a história raramente recompensa de imediato, mas quase nunca falha no juízo final.