José Vitorino Guerra
José Vitorino Guerra

As primárias vieram trazer ao PS maior espaço político e permitir a criação de um projecto alternativo ao que vem sendo aplicado pela coligação PSD/CDS. Contudo, o resultado das primárias não nos deve fazer esquecer as trapalhadas que ocorreram nas eleições das federações e que necessitam de um completo esclarecimento público, para que se possa acreditar que a vida interna do partido ainda se rege por princípios de uma saudável vivência democrática.

Demasiados cidadãos sentem uma natural repulsa em relação à vida político-partidária e muita gente que lá anda dentro tudo tem feito para que ela exista e daí colher os respectivos benefícios em termos de promoção da mediocridade e do clientelismo. É difícil crer que quem se mostra incapaz de reger por princípios e regras democráticas os vá defender e aplicar assim que tiver possibilidade de nos governar!

Não deixou de ser surpreendente a rapidez com que os apoiantes de Seguro chegaram a acordo com António Costa na formação de listas e na partilha de poderes.

Devem-no ter feito com um pesado espírito de sacrifício e por respeito pelos superiores interesses do partido! Só isso explica que, sem um breve período de luto, se tenham rendido a quem era acusado de ser o maléfico representante dos “interesses”.

Falta, ainda, apresentar o programa político de António Costa e dar a conhecer aos portugueses como se pensa reconquistar a confiança, restabelecer a dignidade do Estado, restaurar a soberania, promover o desenvolvimento e a justiça social num quadro europeu marcado pelo Pacto Orçamental, pela política de Merkel e pela crescente dependência externa do País.

Era, também, útil saber como se vai reformar o sistema político e restabelecer a imagem de credibilidade que as instituições do Estado devem ter, desde as escolas aos tribunais, e quais são as forças sociais e partidárias com que o PS conta, para construir a prometida mudança política. Neste momento, existe um oceano de dúvidas e interrogações. Todavia, a união de facto aceite pelos homens de Seguro mostra como a “mercearia eleitoral” faz rapidamente esquecer as palavras, os princípios, as juras e as acusações de ontem, ou não fosse o poder no PS simplesmente redondo.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(texto publicado na edição de 9 de outubro de 2014)