Já imaginou pôr de lado a sua inseparável colher de pau e usar bisturi, lixa, lupa e maçarico para confeccionar a sua ceia de Natal? Talvez não. Mas há quem o faça.

Equipa Olímpica Júnior: em baixo, da esquerda para a direita, Celso Padeiro, Nuno Seixas, Chef António Bóia, Luís Gaspar; em cima, Samuel Mota e João Cunha (da equipa faz parte também Pedro Monteiro que não está na foto)

Luís Gaspar, natural de Regueira de Pontes (Leiria), e Samuel Mota, de Tojal (Porto de Mós), têm 19 anos e são cozinheiros profissionais. Luís Gaspar trabalha no Hotel Grand Real Villa Itália e Samuel Mota no Hotel Altis Belém.

O primeiro formou-se na Escola Profissional de Leiria e o segundo na de Fátima. Mas foi apenas o ano passado que se cruzaram pela primeira vez, quando foram seleccionados de entre 30 candidatos para integrar a Equipa Olímpica Júnior que irá representar Portugal no Campeonato do Mundo de Culinária 2010 no Luxemburgo.

A prova inicia no dia 21 de Novembro para a equipa portuguesa que treinou meses a fio para criar e confeccionar com toda a minúcia pratos exclusivos.

“O nível de competição é tão exigente que a vitória decide-se por pequenos detalhes, por milímetros”, sublinha Luís Gaspar, que não
é pasteleiro mas ficou perito na arte de executar sobremesas.

Além de finger food (miniaturas), a equipa terá de apresentar um buffet com várias sopas, pratos principais, sobremesas e um centro de mesa. No caso, um galo de Barcelos em chocolate com 60 centímetros de altura. Mas há mais.

À selecção caberá ainda servir um menu quente com entradas, um prato principal e uma sobremesa para 60 pessoas.

Se os últimos meses foram difíceis, as últimas semanas foram ainda mais desgastantes, até porque os seis jovens cozinheiros nunca deixaram de trabalhar, tentando conciliar as obrigações profissionais com horas de treino no restaurante da Associação de Cozinheiros Profissionais Portugueses, em Lisboa, onde repetiram os pratos a concurso até à exaustão.

“Fizemos várias directas”, conta Samuel Mota, preparando-se para mais uma semana intensa. “Sempre que posso treino nos intervalos
do trabalho e, por vezes, até às quatro da manhã”.

Sem subsídios do Estado, a participação neste concurso depende do apoio dos patrocinadores. Os concorrentes portugueses não são remunerados. Vale-lhes o “amor à camisola, a paixão pela arte da culinária e a honra de representar Portugal” além fronteiras, acrescenta Luís Gaspar.

Quanto à competição, Samuel Mota receia sobretudo a pressão e o nervosismo. Cada vez mais competitiva, a arte de cozinhar já não
é o que era. “Tem sido mais valorizada e há cada vez mais jovens com potencial. O cozinheiro já não é o senhor de bigode e barrigudo”, adianta Luís Gaspar. Ainda assim, em Portugal, come-se em demasia.

“As pessoas preferem a quantidade à qualidade e nós queremos mudar um pouco isso”, resume. O 11º Salão de Gastronomia do Luxemburgo decorre de 20 a 24 de Novembro. Mais de mil cozinheiros de todo o mundo irão competir em várias categorias e serão avaliados por 58 chefs de renome internacional.

Martine Raínho
martine.rainho@regiaodeleiria.pt