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Infância

“Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

Os números anuais dos nascimentos em casa, em Portugal, não são fáceis de precisar, mas sabe-se que andarão pelos 700, em sentido crescente nos últimos anos.

No dia 13 de Dezembro de 2008, numa pequena piscina insuflável montada num quarto de casal, numa casa em Leiria, à luz de velas e ao som de Kenny G, nasceu Lucas, filho de Michèle Carvalho e Gustavo Desouzart. A acompanhá-los estavam a enfermeira-parteira Ana Ramos, a doula Ana Raposeira, a mãe de Michèle e um casal amigo da família. “Conhece a citação?”, perguntou-nos Michèle: “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”.

A citação, que se encontra com frequência em publicações, sites e blogues dedicados à humanização do parto, pertence a Michel Odent, o cirurgião francês cujos trabalhos de investigação e reflexão sobre a forma como se encara o parto nas sociedades desenvolvidas têm feito escola. Nestas poucas palavras se traduz o princípio norteador do movimento pela humanização do parto, que se desenvolve um pouco por todo o mundo e que, em Portugal, se encontra representado pela Humpar – Associação Portuguesa pela Humanização do Parto.

Regressando a Michel Odent, encontramos uma pista: humanizar o parto é mamiferizá-lo. E recorrendo a outro autor consagrado nesta área, o obstetra brasileiro Ricardo Jones, acrescentamos que humanizar o parto é feminizá-lo. Ou seja: acreditar que a mulher é capaz de parir, respeitando os seus ritmos naturais e a sua fisiologia de mamífera, e centrar nela a autoridade sobre o momento.

“Eu não sou contra o parto hospitalar, sou contra o parto muito manipulado, muito induzido, num ambiente hostil. Demasiada intervenção física e instrumental. No parto hospitalar, só mudando a posição já mudava tudo”. Michèle Carvalho, brasileira, cresceu a ouvir a avó, portuguesa, contar as histórias da sua bisavó, índia, e dos seus 12 partos em casa, sozinha.

Desde muito pequena, Michèle acreditava que iria ter os seus filhos em casa. E reforça: “É desde pequeninas que as meninas aprendem a ser mães”. Assim, optou por estudar muito, informar-se e escolher a forma de ser mãe que para si fazia mais sentido. Foi acompanhada por uma médica obstetra durante a gravidez, que conhecia e respeitava a sua decisão, e escolheu uma doula e uma parteira experientes, capazes de lhe assegurar toda a tranquilidade de que necessitava.

O resto ficou a cargo da sua confiança na sua condição de mulher, de mamífera. Com o apoio incondicional da família, um ingrediente essencial para que esta escolha, como tantas outras, possa ser vivida plenamente.

Os números anuais dos nascimentos em casa, em Portugal, não são fáceis de precisar, mas sabe-se que andarão pelos 700, em sentido crescente nos últimos anos. No Reino Unido ou na Holanda, por exemplo, são muito comuns – para se ter uma ideia, na Holanda 35% dos nascimentos dão-se em casa.

Vejamos agora outros números. Na mesma Holanda, a taxa de cesarianas não ultrapassa os 14%. Em Portugal, é mais do dobro. Ronda os 35%, um número que fica muito acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, o que motivou já uma série de medidas por parte do Ministério da Saúde, no sentido de contrariar esta tendência.

 

Exemplos da Holanda

35 por cento é a taxa de cesarianas em Portugal, percentagem que fica muito acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde

14 por cento é a taxa de cesarianas na Holanda

35 por cento dos nascimentos na Holanda dão-se em casa, sendo também muito comuns, por exemplo, no Reino Unido

34 por cento era taxa de cesarianas no hospital de Leiria em 2008, ano que esta percentagem atingiu o pico, tendo, a partir daí, entrado numa curva descendente

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