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Quando a liberdade de expressão se riscava a vermelho em Leiria

Quando a liberdade de expressão se riscava a vermelho em Leiria

“Demorava normalmente duas a três horas”. Este era o tempo que Carlos Cardoso, aprendiz de composição e paginação, tinha que aguardar sempre que se deslocava ao posto da GNR de Leiria para levar páginas do REGIÃO DE LEIRIA.

Cenário caricato nos dias de hoje, era prática normal nas décadas que fizeram véspera à revolução de 25 de abril de 1974. A censura prévia chegou em 1926 e demorou quase meio século a desaparecer.

Carlos Cardoso, antigo paginador e compositor gráfico do REGIÃO DE LEIRIA: “Só algumas páginas é que iam à censura no posto da GNR. Eram vistas pelo comandante do posto, normalmente era um capitão ou coronel. Na altura, o jornal tinha, em média 12 paginas, e metade eram de publicidade”

tualmente, várias décadas passadas, Carlos Cardoso já se permite ironizar com a espera forçada enquanto os militares da GNR conferiam se os escritos do jornal eram (ou não) a bem da nação: “não sei se o capitão tinha dificuldade em ler, ou se teria que ler ao telefone a alguém mais entendido nas questões da censura”.

Para além de ferir o princípio da liberdade de expressão, este processo acarretava muitas horas perdidas. Afinal, apenas “levava para a censura uma ou duas páginas de cada vez, pois, fazer uma página, levava cinco ou seis horas” explica. É que a composição das páginas era feita numa máquina linotype (linha a linha) e os títulos eram compostos letra a letra, no que se denominava de composição manual, acrescenta.

A verdade é que as regras eram do conhecimento de todas as partes, pelo que o próprio jornal tomava todas as cautelas para evitar cortes, autocensurando-se. “Que me lembre, só uma vez a página foi alterada e tive que voltar lá. Uma outra vez foi uma coluna apenas”, recorda Carlos Cardoso.

Já falecido, Jerónimo Pascoal foi, durante anos, jornalista do REGIÃO DE LEIRIA. E tinha também a função de levar as páginas à censura. Em 1998, em declarações ao nosso jornal, explicava que “para evitar perdas de tempo, os textos já iam preparados”.

Não havia justificação para falhas, sabia-se de antemão que assuntos não podiam ser focados e que tipo de abordagens seriam riscadas. O famoso lápis azul estava afiado e à espreita. Contudo, em bom rigor, em Leiria o lápis era vermelho.

Carlos Cardoso confirma que se recorda de ser o vermelho a cor predominante nas notas do censor. Era um verdadeiro jogo do gato e do rato: “enquanto houve censura prévia tive a preocupação de abordar os temas de maneira que não dissesse objetivamente os que se pretendia, ficava subentendido”, explicou há 16 anos Jerónimo Pascoal.

Mas, apesar de todos os cuidados, nem sempre se conseguia fintar o excesso de zelo da censura. Prova disso mesmo foi a notícia de uma homenagem a um professor de Leiria. Em 1949, a censura não permitiu que fosse publicada, porventura porque o docente em causa não estaria nas boas graças da situação. A notícia com 25 anos, foi publicada em 1974, pouco depois da revolução, no REGIÃO DE LEIRIA.

O padre Domingues Gaspar, que conviveu com a censura no jornal A Voz do Domingo, recorda um episódio em que uma simples palavra ameaçou fazer, literalmente, parar a impressão. “Tínhamos uma página dedicada a cartas de militares no Ultramar, dirigidas à família”, conta. Em dada semana, “olhei para as páginas e não tinham nada de especial”.

Confiante que tudo estava de acordo com as regras, mandou seguir a impressão do jornal, enquanto um funcionário levou as páginas à censura. Mas regressaram com o corte na palavra “serviçal”. “Já tínhamos uns mil jornais impressos”.

Foi necessária muita arte para, pelo telefone, convencer o militar de que “serviçal” era palavra que se referia a alguém que serve e não a um escravo. “Desta vez passa”, foi o recado que recebeu do outro lado da linha.

Papel higiénico contra a censura?

Também no jornal O Mensageiro, a censura fazia das suas. Foi há mais de 40 anos, e o padre António Gameiro ligado à administração do jornal na década de 70, apenas se recorda que nalgumas ocasiões o jornal tinha partes truncadas ou em branco, vítimas da censura.

A fúria com a ação da censura terá levado o padre José Galamba de Oliveira, fundador da Voz do Domingo, a decidir inscrever uma indireta nas páginas do jornal, publicando o anúncio: “vende-se papel higiénico na Gráfica de Leiria”. A história conta-se frequentemente. Será verdadeira?

Domingues Gaspar, que entre 1977 e 2013 dirigiu o jornal, confirma que é uma história recorrente. “A certa altura, estive a analisar o arquivo de 50 anos do jornal e não encontrei esse texto. Mas não esmiucei detalhadamente todas as edições. Se alguém seria capaz de o fazer, era ele”, afirma entre risos.

Carlos S. Almeida
carlos.almeida@regiaodeleiria.pt

(Notícia publicada na edição de 10 de abril de 2014)

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