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Maria João Gago: “BES foi o maior centro de poder do país”

O retrato da ascensão e queda de Ricardo Salgado dá corpo ao livro “O último banqueiro”. O antigo presidente do banco Espírito Santo é descrito como um homem frio, racional e centralizador, que inspirou reverência junto de vários governos.

O retrato da ascensão e queda de Ricardo Salgado dá corpo ao livro “O último banqueiro”, da jornalista Maria João Gago, de Leiria, e de Maria João Babo. O antigo presidente do banco Espírito Santo é descrito como um homem frio, racional e centralizador, que inspirou reverência junto de vários governos. Maria João Gago falou  ao REGIÃO DE LEIRIA sobre o livro e o caso BES.

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Natural de Leiria, a jornalista Maria João Gago é redatora principal do Jornal de Negócios. Antes passou pelo Público, Semanário, Expresso, O Independente, Diário Económico e Diário de Notícias. Acaba de publicar “O último banqueiro” em co-autoria com Maria João Babo

Começaram a trabalhar no livro sobre Ricardo Salgado em 2013, muito antes da eclosão do caso BES. Qual era o ponto de partida?
A ideia era fazer um retrato do banco mais poderoso de Portugal liderado por um dos homens mais poderosos do país. Mas também contar as polémicas em que o BES e o seu presidente se foram envolvendo ao longo dos anos, em diversos casos de Justiça.

Quiseram contar a história através da voz do protagonista ou, pelo contrário, reunir diversos depoimentos?
Procurámos falar com o maior número de pessoas. E conseguimos recolher testemunhos, ainda que off the record, de mais de duas dezenas e meia de antigos ministros, presidentes de bancos e de empresas, amigos e inimigos do banqueiro. Os diferentes ramos da família tiveram oportunidade de contar a sua versão.

O resultado aproxima-se mais de uma peça de jornalismo ou de uma biografia?
Creio tratar-se de uma grande reportagem sobre a ascensão e queda de Ricardo Salgado. Não tivemos a pretensão de fazer uma biografia, mas antes um trabalho jornalístico sobre o poder do BES e do seu presidente nos últimos 22 anos e como esse poder foi sendo reconstruído após o 25 de Abril e se afirmou, mas também sobre como se desestruturou por causa dos problemas na área não financeira do Grupo.

Como é que Ricardo Salgado reagiu?
Não sabemos. Foi desafiado a dar o seu testemunho e chegámos a ter uma entrevista marcada que, por motivos de agenda do banqueiro, acabou por não se realizar.

Mudou a imagem que tinha dele?
Mudou mais por causa dos acontecimentos dos últimos meses do que por aquilo que nos foi dito. Tenho a ideia de que entrou num processo de negação e que adotou uma estratégia de fuga para a frente que terá contribuído para agravar os problemas. Mas estou a fazer uma análise impressionista. Dos relatos dos amigos, o mais surpreendente foi a ideia de que é alguém que não sabe avaliar pessoas. O perfil que traçámos com base nos depoi­mentos é que é um homem frio, racional, inteligente, bem preparado, centralizador.

O que mais a surpreendeu?
Foi muito surpreendente descobrir que Vitor Gaspar, ainda enquanto ministro das Finanças, deu um puxão de orelhas semi público e indireto a Ricardo Salgado, depois de o banqueiro ter posto em causa a sustentabilidade da dívida pública. O habitual era os ministros terem uma atitude de reverência para com Salgado.

A generalidade das pessoas continua sem perceber casos com esta dimensão, quase sem indícios até ao momento da exposição pública. Consegue explicar?
A falta de indícios resulta, sobretudo, do facto de os problemas terem começado nas sociedades através das quais a família Espírito Santo controlava o BES e que não estavam sob o controle do Banco de Portugal. A dimensão do problema julgo que resulta da acumulação, durante muitos anos, de problemas nas holdings de controlo do BES e da transferência destas dificuldades para o banco.

Quem falhou?
Antes de mais nada falharam os responsáveis das sociedades que controlavam o BES, seja Ricardo Salgado sejam outros membros da família Espírito Santo, por ação ou omissão. Julgo que, com o conhecimento que tinham, a partir de certa altura (meados de Junho) também os supervisores podiam ter feito mais.

O jornalista Pedro Santos Guerreiro diz que o BES era um dos fatores de bloqueio na economia. Concorda?
Não sei se era uma força de bloqueio. Mas era, certamente, uma das instituições mais poderosas e influentes do país sobretudo nos últimos seis anos, a partir do momento em que a influência do BCP na economia e na sociedade se esbateu. Pode ter travado muitas decisões, mas também ajudou a tomar outras. Mais do que força de bloqueio, julgo que o BES foi o maior centro de poder do país. Nem sempre com os melhores resultados.

Cláudio Garcia
claudio.garcia@regiaodeleiria.pt

(Entrevista publicada na edição de 25 de setembro de 2014)

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