“Andamos com o coração nas mãos, como se costuma dizer”, confessa Céline Gaspar, presidente da freguesia de Monte Redondo e Carreira. É certo que o rio Lis tem sido alvo de algumas intervenções, mas os receios mantêm-se. Falta, pelo menos, o desassoreamento, aponta Uziel Carvalho, presidente da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis.

A razão é simples. O troço atual do rio é artificial e o leito está já uns bons dois metros acima da cota original. Ora, sem se retirar pelo menos metro e meio, as inundações do ano passado podem repetir-se, basta que o inverno volte a mostrar vigor semelhante ao do ano passado.

“Não estou nada otimista”, confessa Uziel Carvalho que confia que o reforço das margens em curso acabe por evitar inundações em Monte Real, mas teme que aconteçam a jusante. E a zona da pista de pesca, que já entra na antiga freguesia da Carreira, é um dos pontos mais fracos, logo um dos mais prováveis para provar a fúria do rio musculado pelas águas da chuva, aponta.

Céline Gaspar pede que pelo menos avance o desassoreamento, antes de se fazer uma intervenção de fundo que resolva de vez o problema. “O que mais me revolta é que o Governo não pegue no projeto de fundo que já foi falado”, reforça, garantindo que vai continuar a pressionar para que algo se faça.

Há duas semanas, deputados do PS eleitos por Leiria, questionaram o governo sobre a necessidade de se avançar com obras concretas – e que incluem o desassoreamento, mas não só – para evitar “mais ruinosos prejuízos no vale do Lis”. A pergunta continua a aguardar resposta governamental.

Raul Castro, presidente da Câmara de Leiria, que na última terça-feira recebeu em Leiria o ministro do Ambiente, também não tem qualquer indicação sobre a possibilidade de uma intervenção mais profunda. “Estamos preocupados”, confessa.

Mais perto da foz do rio, Joaquim Vidal Tomé, presidente da Junta de Vieira de Leiria, aponta no mesmo sentido: já se realizaram reuniões com propostas de intervenção no rio, para evitar males maiores. Até que isso aconteça, transborda a preocupação com o que possa acontecer.

Vizinha do rio, Leiria também tem enfrentado episódios de inundações na zona central da cidade. Nesse capítulo, Ricardo Santos, vereador do Ambiente, refere que já foram executadas intervenções na Rua João de Deus, aumentando assim o número de entradas de águas pluviais na rede ali existente e, consequentemente, a capacidade de vazão das águas”.

Aí, “serão bastante menores as probabilidades de ocorrência de inundações”. Mas à medida que o rio avança rumo à foz, o receio aumenta com a intensidade das chuvas. As cheias vão repetir-se?

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Responsáveis locais temem que a fúria do rio Lis volte a causar prejuízos (fotografia de arquivo: Joaquim Dâmaso)

Proteção civil atenta e ambientalistas reclamam intervenções de fundo

“Na precipitação total semanal preveem-se valores acima do normal” até ao final do mês de novembro. A informação consta do boletim de previsão mensal do IPMA. Tem valor indicativo, somente. Nada revela, sobre se há chuva ou vento mais musculados no horizonte. Esses fenómenos escapam a previsões de médio prazo. Mas, e se o inverno for especialmente rigoroso, como do ano passado? Estaremos preparados?

“Acima de tudo, estamos mais atentos”, responde Sérgio Gomes, responsável distrital da proteção civil. O facto dos fenómenos meteorológicos severos serem “mais repetitivos e alguns deles extremos faz com que estejamos mais alerta”, acrescenta.

Os incêndios florestais sempre foram a face mais visível da proteção civil, mas Sérgio Gomes reconhece que os invernos rigorosos estão a mudar a forma como se olha para estas questões. E importa, ser mais preventivo e “menos reativo”, embora boa parte dessa tarefa escape à proteção civil.

Quanto às inundações, “não podemos esquecer que a água tem de ter escoamento e esse é um trabalho de gestão que deve ser feito de forma consistente e planeada”. Planeamento? O ambientalista Mário Oliveira, que se lembre, nunca viu a Oikos, associação a que preside, ser chamada para ajudar a planear:

“Nunca foi chamada por qualquer entidade com responsabilidade na prevenção e gestão do risco ambiental”, lamenta.

E não faltavam sinais de que algo teria de ser feito. As alterações climáticas e seus impactos não são novidade. Acrescem erros repetidos: “basta lembrar a forma como desflorestamos e reflorestamos, sem respeito pelos declives e tipos de solo”, exemplifica.

A lista inclui ainda, entre outros erros, a ocupação e impermeabilização de solos agrícolas e leitos de cheia, a “forma inacreditável” como se urbaniza sobre arribas instáveis e dunas e se negligencia “a importância da vegetação ripícola no controle das cheias”.

Para este ambientalista, as obras de limpeza de margens de rios, enrocamentos, esporões, por exemplo, “são intervenções de remediação” Reclama ações de “fundo” que conduzam à “recuperação dos ecossistemas naturais e, por isso, mais adaptados a responder às agressões da natureza”.

Números

300
relação por vezes difícil com o rio Lis não é de agora. Há cerca de trezentos anos, no início do século XVII o leito do rio foi desviado na cidade. Inundações frequentes obrigaram a essa intervenção

70
Os trabalhos de correção do leito do Lis  ganharam novo  ímpeto há cerca de 70 anos. Situação que permitiu posteriormente avançar com a regularização do rio até à sua foz, recuperando os campos do Vale do Lis

2,5
Em fevereiro do ano passado, o rio Lis saiu do leito na zona de Monte Real, causando avultados prejuízos. Só a unidade termal local teve de investir 2,5 milhões para poder reabrir portas depois dos danos causados pelo rio

CSA

(Notícia publicada na edição de 13 de novembro de 2014)