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Projeto de reabilitação física no domicílio pioneiro no distrito de Leiria

Maria de Jesus Franja aprendeu a fazer exercícios sozinha e notou melhorias após duas semanas Foto: DS

Há muito que Maria de Jesus Franja sofre das costas, mas foi por causa dos joelhos que ficou sem andar no final do ano passado. Residente na freguesia de Almagreira, Pombal, tem conseguido, com as idas à piscinas, garantir a mobilidade de que precisa para realizar tarefas diárias e manter a sua autonomia. Até ao dia em que uma alergia a afastou da ginástica na água.

A artrose agravou-se na passagem de ano quando se encontrava na Suíça, de tal forma que “chorava quase todos os dias”. Perdeu a sua autonomia, não conseguia subir as escadas que a levavam ao terceiro andar onde vive o filho e teve de recorrer ao hospital

Ainda assim, o seu estado não é considerado prioritário – ao contrário dos doentes de AVC, vítimas de acidentes ou que tenham sido sujeitos a cirurgia – pelo que integrou a lista de espera dos doentes crónicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para tratamentos de fisioterapia. Por falta de recursos e de unidades convencionadas nesta área – problema que afeta particularmente os concelhos de Alcobaça e Pombal – ficou meses à espera de uma resposta.

E por mais que tenha estranhado o convite do Centro Hospitalar de Leiria (CHL) para aderir a um programa de telerreabilitação – isto é ao domicílio e sem a presença física de um terapeuta -, não hesitou em aceitar o desafio.

Durante cinco semanas, realizou os exercícios prescritos através da plataforma desenvolvida para tratar doentes com patologia osteoarticular crónica do ombro (tendinopatia) ou do joelho (artrose de joelho), e o balanço não podia ser mais positivo.

“É fantástico”, afirma Maria de Jesus, que procurou seguir à risca o plano terapêutico definido, e revisto todas as semanas, pela fisioterapeuta Marisa Bernardino. Quase diariamente, executou os exercícios sob orientação de uma fisioterapeuta virtual com recurso a um tablet com ligação à internet e aos sensores que colocava no tronco e pernas com fitas de velcro para que todos os movimentos e respetiva amplitude ficassem registados. O sistema consegue ainda identificar más posturas, dificuldade na realização de alguns exercícios e erros e alertar o doente para a sua correção.

No final de cada sessão, o doente é ainda questionado sobre a intensidade da dor e cansaço sentidos, sendo os dados transmitidos em tempo real para a plataforma Sword Phoenix e analisados por Marisa Bernardino.

Quando iniciou o programa, Maria de Jesus não conseguia levantar-se da cadeira sem apoio, mas notou “muitas melhorias” logo na segunda semana. Reconhece que o facto de já usar computador lhe facilitou a tarefa e que tenta, sempre que possível – já sem apoio do sistema – realizar exercícios diários.

Hospital pioneiro
O CHL é o primeiro hospital público do país a recorrer a uma plataforma de reabilitação física monitorizada no domicílio para tratamento destas patologias. O programa é financiado em 85% no âmbito do Programa de Incentivo à Integração de Cuidados e à Valorização dos Percursos dos Utentes no Serviço Nacional de Saúde, em parceria com os Agrupamentos dos Centros de Saúde (ACES) Pinhal Litoral e Oeste Norte e a Sword Health, responsável pelo desenvolvimento da plataforma.
Embora o projeto permita o acompanhamento de 30 doentes em simultâneo, o “grande volume de doentes crónicos em relação ao número de médicos” disponíveis no Serviço de Medicina Física e Reabilitação do CHL tem provocado atrasos no processo de avaliação e recrutamento dos doentes.

Lília Martins, fisiatra, sublinha contudo a importância deste projeto para “dar resposta a doentes crónicos cujo tempo de atendimento para consulta de fisiatria ou para orientação para a fisioterapia convencional é muito demorado”.
Os potenciais candidatos são referenciados para o CHL pelos médicos de família, com base nos critérios de referenciação e inclusão definidos entre os parceiros.

Segundo a especialista, uma das mais-valias do projeto é o acompanhamento do doente ao domicílio, sem necessidade de deslocações. “Estamos a falar de pessoas que vivem fora do centro da cidade e que têm que fazer 20 ou 30 km para se irem a um hospital ou a uma clínica convencionada”.

Maria Pisco, diretora do ACES Oeste Norte, destaca também a acessibilidade e aproximação dos cuidados ao doente que o programa confere, a capacitação do doente para que possa continuar a fazer os exercícios prescritos e a visita da assistente social que avalia “as condições que existem na casa do utente para que possa ter o máximo de ganho”.

Já Rui Passadouro, do ACES PL, considera o projeto “um complemento àquilo que se faz [na fisioterapia convencional]. São patologias muito específicas, com capacidade de recuperação com este projeto, que nunca teriam acesso aos cuidados atendendo aos recursos limitados”. 

Entretanto,  o projeto foi ditinguido com o Prémio Inovação NOS. A cerimónia de entrega dos prémios aconteceu esta quinta-feira, em Lisboa. Leia a notícia aqui

(Artigo publicado na edição do REGIÃO DE LEIRIA de 7 de junho de 2018)

Martine Rainho
Jornalista
martine.rainho@regiaodeleiria.pt

45 pacientes em dois meses

O programa arrancou em março e já incluiu 45 pacientes, maioritariamente com patologia osteoarticular do joelho (27) e do ombro (17). Destes, 34 já tiveram alta e sete estão ativos, incluindo um utente com problemas na anca.

Quatro semanas de terapia

O plano de intervenção, definido após avaliação em consulta de fisiatria no CHL, dura em média quatro semanas, podendo prolongar-se mais uma. A adesão à terapia (sete dias por semana) ronda os 87,56%.

Adesão voluntária e gratuita

A média de idades dos participantes é de 65 anos, residindo a maioria nos concelhos de Alcobaça e Pombal, por falta de unidades convencionadas na área da fisioterapia. A participação dos doentes selecionados é voluntária e gratuita (sem qualquer custo).

Critérios de inclusão

O projeto destina-se a acompanhar doentes crónicos com patologia osteoarticular de ombro ou joelho, com queixas de dor inferior a 5 e com mobilidade suficiente para a realização dos exercícios prescritos.

Este projeto começou em março deste ano e já abrangeu 45 doentes. Visa complementar o que já existe nos hospitais, cuidados de saúde primários e unidades de convencionados [em tratamentos de fisioterapia]. Não pretende substituir mas complementar e há critérios de inclusão e exclusão definidos entre os parceiros

Alexandra Borges

Vogal do CA do CHL

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