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Pais levam filhos à escola a pé e promovem estilos de vida saudáveis

Caminhada até à escola arrancou no último ano lectivo. Grupo pretende criar novas dinâmicas durante os próximos meses Fotos: Joaquim Dâmaso

Chegam à escola de olhos bem abertos e com algumas centenas de passos contabilizados. De sorriso no rosto, com uma corrida nas pernas e um desafio ganho. Alguns já a despir casacos. O exercício deu para aquecer e deixa as maçãs do rosto rosadas. Antes de entrar na sala de aula, os estudantes conferem quantos passos deram e quem foi o totalista, às vezes, reconhecem, com alguma batota colocada à mistura.

É assim, duas vezes por semana, na Escola do 1º ciclo do ensino básico de Regueira de Pontes, no concelho de Leiria.
A poucos quilómetros da capital de distrito, em ambiente rural, um grupo de alunos (e pais) encontra-se 20 minutos antes do toque de entrada nas aulas, junto ao campo de futebol 7, do Clube Atlético de Regueira de Pontes (CARP).

Dali até à escola, o grupo não demora mais de 9-10 minutos a caminhar mas enquanto aguardam que todos cheguem, há tempo para jogos tradicionais, com estimulação motora. O jogo do galo com corrida, os três pauzinhos,…

Na sexta-feira, Rodrigo foi o primeiro a chegar, seguiu-se Beatriz, Miguel e outros sete. Samara e Bernardo foram os últimos e a novidade. Pertencem à turma de primeiro ano e Bernardo fez pela primeira vez a caminhada até à escola. “Por vezes há dificuldades em conciliar horários mas a atividade é muito interessante para eles e hoje conseguimos estar despachados a tempo”, explicou Elisabete Gomes, mãe do aluno, que também integrou a caminhada.

Pais como exemplo
A ideia, conta Rui Matos, docente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais, em Leiria, surgiu no ano passado, desenvolvida por ele e por Nuno Amaro, ambos professores no IPLeiria e membro integrados do CIEQV (Centro de Investigação em Qualidade de Vida).

O projeto tem como ponto de partida o conceito walking bus, aplicado em vários países europeus, e com duas ou três experiências em Portugal, onde os pais formam um grupo e levam os filhos até à escola a caminhar.
“No final do ano [letivo] passado, começamos a caminhar de um ponto de partida comum até à escola. São cerca de 600 metros e fazê-lo duas vezes por semana, de acordo com a disponibilidade dos pais, que acompanham os alunos”, explica Rui Matos, que nesta caminhada também assume o papel de pai.

“Um dos objetivos é torná-los meninos com gosto pela atividade física. Claro que não é a atividade que fazem aqui que lhes vai dar nada mas vai motivá-los para fazer outras coisas fora da escola. E, muitos deles, quando perguntamos se querem ir a algum lado, já perguntam ‘Vamos a pé?’”, salienta Rui Matos.

À adoção de estilos de vida ativos, junta-se a promoção de sociabilidade entre as crianças da mesma escola e entre os respetivos encarregados de educação. “É importante que os pais sejam um elemento participante. Os pais são um exemplo decisivo para as crianças. Se o pai passa o tempo no sofá, eles não encontram motivo para se mexer”, acrescenta.

Nuno Amaro vai mais longe: “face ao estilo de vida sedentário que a população portuguesa apresenta e, em particular, as crianças, urge adotar um estilo de vida mais ativo. Para as crianças, a atividade física e o exercício físico revelam-se deveras importantes para o seu normal desenvolvimento, não só físico, mas mental, social ou até, como bem evidenciado pela ciência, cognitivo”.

Lina Lourenço e Ana Manaça, professoras na EB1 de Regueira de Pontes, partilham da opinião e aplaudem a iniciativa. “Quase todas as semanas os alunos de 3º ano vão dar um passeio ao pinhal, onde passeiam, lêem, descobrem a natureza, trabalham matemática. Estas atividades [caminhada] têm sempre reflexo nas crianças, elas contactam com o ar livre e ficam mais despertas para o mundo, mais ricas. Ficam mais despertas”, afirma Lina Lourenço.

“É importante que os pais sejam um elemento participante. Os pais são um exemplo decisivo para as crianças. Se o pai passa o tempo no sofá, eles não encontram motivo para se mexer”.

Rui Matos

Professor de Desporto do IPLeiria e pai

Semente para a vida
À caminhada, este ano letivo, e enquanto as condições meteorológicas o permitirem, acrescentam-se os jogos tradicionais e, ao sinal de partida, alguns alunos cumprem o exercício com pedómetro.

“O uso do pedómetro promove uma competição saudável para ver quem dá mais passos, ainda que alguns comecem a correr e a saltar para o aparelho contar mais”, refere Rui Matos, desvendando a “batota” da caminhada.

No pátio da escola, é feita a contagem. 1260, 1047, 2136 – “A sério? Andaste isto tudo?”, pergunta Rui Matos enquanto parabeniza o aluno – 1852 e 1582 são alguns dos totais obtidos ao fim de 15 minutos com o pedómetro à cintura.

O trajeto inclui ainda a travessia e equilíbrio num pequeno muro, a observação de elementos naturais (aranhas, árvores de fruto) e agrícolas (milho na eira) ou a aplicação das regras de circulação rodoviária.

Há resultados? “A semente está lá e, com certeza, mudará a vida destas crianças e será algo que se recordarão, tal como eu me recordo do regresso a casa após a escola, onde podia ‘vagabundear’ pelos pomares, testar super poderes ao trepar uma árvore ou ultrapassar obstáculos (muros, ribeiros, entre outros), ver os ofícios de quem trabalhava de porta aberta, das folhas caducas do outono, das flores na primavera…enfim, lembro-me de viver”, realça Nuno Amaro, destacando que o maior benefício é a “felicidade das crianças”.

“A caminhar para a escola” foi um dos temas apresentado no 2º Fórum Desporto da REDESPP (Redes de Desporto nos Politécnicos), em novembro, na ESECS, em Leiria.

E a caminhada não termina aqui. A equipa promotora do projeto estuda, a breve prazo, elevar a atividade para outro patamar, com a delineação de “um trajeto de recolha dos alunos nas suas casas” em direção à escola.

(artigo publicado na edição de 1 de novembro de 2018)

Marina Guerra
Jornalista
marina.guerra@regiaodeleiria.pt

Joaquim Dâmaso
Fotojornalista
joaquim.damaso@regiaodeleiria.pt

Do campo de futebol 7 do Clube de Regueira de Pontes até à escola são cerca de 600 metros. Os alunos e os pais são convidados a fazê-lo duas vezes por semana, de acordo com a disponibilidade dos pais, que acompanham o grupo de crianças.

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