O terceiro disco da banda de Leiria surpreende pelas novidades estilísticas a nível sonoro. Mas também porque vem acompanhado de um filme conceptual com oito episódios – um por cada tema do álbum

Manuel Leiria
Jornalista
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

Houve discussões sobre quem lavava a loiça e outros stresses normais entre um grupo de pessoas que coabita debaixo do mesmo teto. Mas valeu a pena. Para fazer o terceiro disco, os First Breath After Coma (FBAC) quiseram estar juntos num intenso brainstorm de criação e composição que lhes revolveu a própria vida.

Na freguesia de Cortes, na Casa da Reixida já com currículo na história da música de Leiria – os Silence 4 começaram ali -, os cinco músicos mergulharam de cabeça no novo álbum: recuperaram o edifício e foram para lá viver, focando-se 100% no novo trabalho.

“Era para ser um mês e já passaram sete ou oito”, conta Rui Gaspar, um dos elementos da banda, lembrando a rotina dos últimos meses: “Acordávamos, descíamos e começávamos a tocar”.

Dia 3 de fevereiro abriram as portas de casa para mostrar às famílias e amigos o resultado. “NU”, terceiro longa duração da banda de Leiria, chega a 1 de março e tem extra: um filme.

“É um álbum visual. Ambos se juntam para fazer um só, não estão separados”, explicou nesse domingo à tarde à plateia outro dos FBAC, Telmo Soares. A ideia era antiga e ganhou força com a afirmação e inspiração da Casota Colletive, produtora audiovisual que integra vários elementos da banda: “Decidimos concretizar algo que andávamos a magicar desde o último álbum: dar um filme à totalidade das músicas”.

Na tela mostraram quase 40 minutos de um filme “com muita inspiração literária”, que dá outra dimensão ao álbum mais íntimo e pessoal que já fizeram, admite Telmo. “As nossas vidas estão muito dentro deste filme e dentro destas músicas”.

Desde 2012 que o som da banda revelou, sempre, um registo bastante cinematográfico. Agora, em 2019, os FBAC assumem-no na plenitude e contam em imagens uma história de nascimento, vida e morte.

Naqueles oito temas/capítulos, estão projetadas experiências intensas da existência de cada um deles, “um mix de sentimentos e emoções” criado para “cada pessoa sentir à sua maneira”. “Queríamos deixar isso em aberto e, por isso, fizemos um filme tão conceptual”.

Para as filmagens recorreram a cenários como a Fórnea (em “Heavy”), em Porto de Mós, ou uma imensa herdade alentejana. “Tivemos muita sorte em encontrar alguns daqueles sítios. Parece que fomos quase para o meio da selva mas é tudo em Portugal, no máximo a duas horas de distância de Leiria”.

Mudanças sonoras

Dois episódios deste filme são já conhecidos: os vídeos “Heavy” e “Change”. “Estamos a pensar lançar praticamente todos como singles”, diz Telmo Soares, que assina a produção visual. “NU”, o filme, deve seguir o caminho dos festivais. Já “NU”, o disco, é reconhecido como o mais ambicioso até ao momento.

“É uma mudança bastante radical na nossa sonoridade. Mas a essência está lá”, garante. As diferenças para “The misadventures of Anthony Knivet” (2013) e “Drifter” (2016) são facilmente percetíveis.

“Usávamos muito reverb em tudo e, quando começámos a fazer este disco, decidimos tirar essa ‘cortina’ da frente”, explica Rui Gaspar. Há mais silêncios e a secção rítmica ganha protagonismo. “Não é por não gostarmos do efeito [do reverb], mas decidimos marcar uma mudança de rumo”.

Outra alteração significativa foi o método de gravação. “Nos outros discos tocámos todos juntos, ao mesmo tempo”. Para “NU”, os FBAC gravaram os instrumentos um a um. “Depois fomos construindo no computador”, explorando possibilidades.

“Deu um bocado de trabalho e não sei se vamos continuar assim. Mas foi uma boa experiência”, conta Rui, que assumiu a tarefa.

Também o rótulo pós-rock tende a cair ao terceiro disco. “Inconscientemente, ao explorarmos outra soluções, com mais teclados e menos guitarras, acabámos por sair um bocado daí”, reconhece Rui Gaspar. “Mas continuo a gostar de pós-rock”.

Agora estão desertos por voltar à estrada, depois de meses longe dos palcos. “Pusemos as nossas tripas, coração e alma neste álbum e neste filme. Estamos completamente em ‘pulgas’ para mandar tudo cá para fora”, diz Telmo Soares.

“Estamos muito satisfeitos, é um trabalho que nos fez crescer muito. Mas o principal é tocar o máximo possível”, sublinha Rui, sobretudo lá fora. “Em Portugal o mercado é reduzido para o nosso género musical”.

E como fica a vida na Casa da Reixida? “Ficamos até nos mandarem embora. Há um projeto para aqui e a casa faz parte, como projeto de residência para outros artistas. Quando isso acontecer temos de ir à procura de outra”.

(Reportagem publicada na edição de 7 de fevereiro de 2019)

Os First Breath After Coma nasceram em 2012 e são Rui Gaspar, Telmo Soares, João Marques, Pedro Marques e Roberto Caetano. A banda surgiu num concurso de música para bandas de escola, Zus!, organizado pela associação Fade In. O terceiro disco, “NU”, sucede a “Drifter” (2016). O primeiro álbum da banda de Leiria é “The misadventures of Anthony Knivet” (2013)

“NU”, lançado a 1 de março, tem já uma longa digressão de apresentação anunciada. Leiria marca o arranque, com concerto no dia 6 de março, no Teatro José Lúcio da Silva. Segue-se Lisboa, Porto, Coimbra, antes de partirem para Vigo e Oviedo, em Espanha, e mais de 20 datas na Holanda e, sobretudo, salas na Alemanha. Mas estas são apenas as datas confirmadas até 13 de abril. Em Portugal, está também confirmada a atuação no Festival Paredes de Coura, a 16 de agosto