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Anjos músicos do Mosteiro da Batalha inspiram colóquio sobre música antiga

Há anjos músicos no portal principal do Mosteiro da Batalha, mas também noutras zonas interiores e exteriores do monumento

As figuras de doze anjos músicos presentes no portal principal e na nave central da igreja do Mosteiro da Batalha são o ponto de partida para a primeira edição de um colóquio dedicado à música antiga peninsular, no sábado, 21 de setembro, a partir das 14h30. A entrada é livre.

Essas figuras, que aparecem no portal principal e na nave central da igreja com “pandeiro com soalhas, viola de arco, viola de mão, charamela e flautas, o saltério, a cítola e amandora ou o orgão portativo”, inspiram o evento, explica à agência Lusa o musicólogo e coordenador científico, António Cardo.

Foi a partir desses anjos músicos que surgiu a ideia de realizar no Mosteiro da Batalha um encontro que pretende “aprofundar o conhecimento da música antiga peninsular, dos séculos XV e XVI”, ou seja, “o tempo áureo da construção do mosteiro e da sua vivência conventual”.

Indo ao encontro das raízes e tradições musicais, proporciona-se o contacto com instrumentos e sonoridades desse tempo, “dando a conhecer igualmente o trabalho de investigadores, músicos e artesãos que, baseados em fontes documentais diversas – como é o caso das representações escultóricas patentes no portal da Igreja do Mosteiro da Batalha – tentam reconstituir esses instrumentos”.

Amplamente estudado, o portal do Mosteiro da Batalha destaca-se “no panorama da arte peninsular e europeia”, frisa o diretor do monumento.

Na 5.ª arquivolta, surgem os anjos-músicos, como que envolvendo o crente com “música celestial” no “seu trânsito para a glória eterna”, explica Joaquim Ruivo.

A importância do conjunto mereceu um estudo do investigador Luís Correia de Sousa, especificamente sobre os anjos-músicos. As conclusões são apresentadas no colóquio de sábado.

O programa inclui ainda uma intervenção de Hugo Sanches sobre a música do século XVI no contexto das relações peninsulares, Jorge Lira falará das tradições musicais num périplo de quase mil anos pela evolução da gaita-de-foles e, finalmente, Orlando Trindade mostra e toca réplicas de instrumentos medievais.

O colóquio acompanha o “papel de grande relevo” que a música teve na história do Mosteiro da Batalha.

Enquanto foi convento dominicano, vocacionado para o ensino teológico, e “universidade por decisão papal a partir de meados do século XVI”, calcula-se que só na Capela do Fundador se realizassem anualmente “cerca de três mil atos litúrgicos relacionados com os reis e infantes aí sepultados”. “A música e, sobretudo, o canto teriam grande predomínio”, recorda Joaquim Ruivo.

Curiosamente, em contraste com “a solenidade da liturgia dominicana”, que valorizava “a música vocal gregoriana e monódica”, há por todo o interior e exterior do monumento “profusa representação escultórica de anjos músicos”, nota Joaquim Ruivo, “a maioria deles associados a instrumentos ‘não canónicos’ e à música ‘profana’, de tradição judaico-cristã”.

O diretor lembra ainda que existiu um órgão na Igreja do Mosteiro. “Estaria muito deterioridado em meados do séc. XIX e o seu estado de conservação ditou o seu desmantelamento, na grande campanha de conservação e restauro após 1840”. Há também notícia da existência de orgãos portáteis no monumento. “Nada deles resta presentemente”, lamenta. 

ML

Intensamente estudado por diversos historiadores – Saul António Gomes e Jean-Marie Guillouet foram só os mais recentes a dedicarem-lhe investigações – o portal principal da igreja do Mosteiro da Batalha representa a majestade de Deus, “tal como também a entendiam os Dominicanos”, explica Joaquim Ruivo. O diretor descreve-o: “Os apóstolos em grande plano e ao, fundo, no tímpano, Deus-Pai Criador, rodeado pelos quatro evangelistas. Como que antecipar o caminho do crente para a glória de Deus-Pai, após a sua morte, no início desse trânsito, o crente deparar-se-ia com as virgens santas, papas, bispos mártires do Novo Testamento (representados em duas arquivoltas)”. Depois surge “o encontro com os reis de Judá, Profetas e patriarcas do Antigo Testamento”, em mais duas arquivoltas. “No passo seguinte do seu trânsito para a glória eterna,  o crente seria envolvido pela música celestial tocado por anjos-músicos”, na quinta uma arquivolta. “Finalmente, a certeza do seu encontro com o Criador, na sua majestade, quando se deparasse com os Serafins (seres etéreos com três pares de asas), representados na 6ª arquivolta do portal”. Um portal que, recorda Joaquim Ruivo, “tanto terá impressionado o nobre inglês William Beckford, na sua visita ao Mosteiro no final do séc. XVIII”.

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