Três semanas depois de ser capturado, o grifo encontrado em Serra de Porto de Urso, no concelho de Leiria, foi devolvido à liberdade.

O animal “instalou-se” no telhado de uma casa na freguesia de Monte Real e Carvide, a 5 de setembro, e ali permaneceu até dia 12. Na passada segunda-feira, foi libertado na serra da Malcata.

Durante o período em que permaneceu no topo da habitação, a ave mostrou-se indiferente às dezenas de pessoas que ali passavam para o admirar e fotografar e nem os caça F16 da Base de Monte Real, que levantam a uma centena de metros do local, o incomodaram.

Sem conhecer os motivos que levaram a espécie a parar na região, calcula-se que o grifo, ainda juvenil, se terá desorientado, durante o processo migratório para o norte de África.

Perceber se estava magoado, ferido ou desidratado foi a preocupação dos fotógrafos amadores da Naturalis, grupo que desenvolve ações de sensibilização e preservação de aves, maioritariamente na zona dos campos e foz do Lis. A dupla foi convidada para assistir à devolução da ave à natureza e esteve na passada segunda-feira, dia 30 de setembro, na Malcata.

“A nossa principal preocupação era saber se o animal estaria ferido. Estas aves podem estar até dois, três dias no mesmo local, para descansar da viagem que estão a realizar. Durante estes dias preocupamo-nos em monitorizar a ave, conseguir que se alimentasse e hidratasse”, explicam João Mourinho e Fernando Piedade, da Naturalis. 

A passagem do grifo serviu também para uma sensibilização da população para a existência do animal, a sua preservação e esclarecer algumas dúvidas sobre os seus hábitos.

Quase percebendo que era hora de partir, no dia 12 de setembro pela manhã, o grifo desceu do telhado, bebeu água e quando lhe foi oferecida carne, não recusou em dar um salto até ao chão, para saborear o petisco.

O momento foi aproveitado para capturar o animal, que seguiu para o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), em Gouveia, onde foi acompanhado.

As primeiras análises revelaram que o animal estava debilitado e com um peso abaixo da média. Permaneceu cerca de três semanas no centro, podendo recuperar o peso, exercitar as asas e conviver com outros animais. O “regresso” à liberdade, na Malcata, um dos últimos refúgios naturais do território português, foi ainda aproveitado para devolver outro grifo, que também esteve a recuperar no CERVAS.

O abutre-fouveiro (Gyps fulvus), também conhecido como grifo, existe nas montanhas do sul da Europa, sudoeste asiático e África. Pode medir até 1 metro de comprimento e ter 2,7 metros de envergadura, com peso entre os 6 e 12 kg.

A parte superior e inferior do corpo apresenta castanha clara, e o pescoço apresenta um colar espesso de penas claras na base, sendo depois coberto de pequenas penas brancas até à cabeça. Em juvenil, o colar é castanho, tal como o bicho é escuro. Alimenta-se quase exclusivamente de carniça, passando longo tempo a pairar alto no céu à procura de cadáveres, voando em círculos.

À semelhança do que aconteceu, se encontrar algum animal ferido, desorientado ou cansado, deve contactar o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) (808 200 520).

Fotos: Naturalis

Marina Guerra
Jornalista
marina.guerra@regiaodeleiria.pt