Ela esteve o tempo todo presente. Do início ao fim do estado de emergência, a comida foi uma das personagens inerentes aos dias de recolha em casa. Para quem já estava habituado ao exercício da cozinha, não houve grandes novidades e até as experiências de pão viraram diversão. O teste de fogo foi para quem, por escolha ou necessidade, estava habituado ao conforto associado aos sabores da restauração.

Já na fase de reabertura, chamámos à conversa três apaixonados por restaurantes e perguntamos-lhes: o que esperam encontrar quando voltarem a sentar na tasca de eleição? Os temperos das respostas para o futuro divergem, mas a base da preparação é a mesma: para que a retoma seja bem-sucedida, cada negócio precisa fazer o que melhor sabe.

Habituada a registar e partilhar experiências gastronómicas no perfil Tascolândia, no Instagram, Sandra Pereira, 46 anos, não tardou em traçar um plano para os primeiros dias de regresso à “pseudonormalidade”, como lhe chama. “Desconfinei nas esplanadas dos cafés, vesti roupa decente e comi o marisco que fui buscar pela primeira vez, em modo take away”, relata a gestora de formação.

Sandra Pereira estava habituada a ir aos restaurantes da região e registar suas experiências à mesa

Para as próximas semanas, espera que o distanciamento social nas salas dos restaurantes seja compensado pela boa comida, que certamente virá acompanhada do desafio em manter a identidade desses espaços. “Essencialmente em locais pequenos, onde a proximidade do cliente é uma das principais mais-valias e factor de diferenciação”, enfatiza, lembrando que o período mais obscuro deixou como herança também novas oportunidades para os negócios. “O serviço de take away, fazer jantares privados e cozinhar em casa dos clientes são alternativas possíveis”, sugere, antes de partilhar a conclusão que serve de conselho: “Há que saber (re)adaptar, (re)ajustar e procurar que o conceito seja, obviamente, sustentável”.

Com a intenção de voltar de “imediato” aos restaurantes que frequentava religiosamente, Pedro Oliveira, 54 anos, tem como argumento duas razões bastante objetivas: “tenho saudades e tenho confiança na responsabilidade como assumiram a reabertura”, refere sobre os empresários da restauração.

Saudoso também das jornadas gastronómicas que habitualmente fazia com a confraria EpiCook, o publicitário tem na ponta da língua os desejos que ficaram guardados durante a quarentena: “quero voltar a sentir a combinação do Dão encruzado com o atum braseado do Ao Largo; da imperial-sem-fim a festejar o meio-bife-alto-à-Lisbar; da alheira salvadora das Catarinas; e das amêijoas no Aki-D’El-Mar”, lista.

A mudança já visível pós-pandemia para Júlio Jesus, de 55 anos, é o contacto direto, “que a generalidade da restauração da nossa região não fazia com os clientes, e hoje é uma realidade”, observa.

A opinião vem após acumular muitas viagens com os amigos à procura, essencialmente, de bons sabores e vinhos. “Espero encontrar a grande qualidade da comida que já existia e um atendimento de excelente qualidade em que os clientes serão valorizados”, projeta o diretor de operações, crente também de que o take away e o delivery vieram para ficar.